Como atuamos

Formações com a DRE


O trabalho desenvolvido pela Fundação Tide Setubal junto às escolas de São Miguel apresenta um percurso com etapas variadas. Iniciado com a multiplicação de metodologia diretamente com os alunos, proporcionado novos aprendizados, passando pela formação de professores por meio de diferentes temas, buscando a aproximação entre educadores e educandos e chegando a formações em horários das Jornadas Especiais de Formação (JEIF) e Aulas de Trabalho e Pedagógico Coletivo (ATPC) com a participação de diretores, professores e coordenadores na reflexão sobre planos e ações pedagógicas sobre a realidade da escola. Essa trajetória é traçada desde 2010 pela atuação dos diferentes núcleos da Fundação que criaram parcerias com escolas, contribuindo com a conexão desses espaços com o território.

Em 2013, essa conexão foi ampliada por meio de uma parceria com a Diretoria Regional de Ensino (DRE São Miguel). Lançado em agosto do mesmo ano como política municipal em São Paulo, o Mais Educação tem como meta oferecer educação integral aos alunos da rede pública. Muito além da ampliação da jornada escolar, a educação integral visa oferecer novas oportunidades educativas que, por meio de diferentes linguagens, sejam capazes de estimular o desejo de aprender em crianças, adolescentes e jovens. Alinhada à nova política, a Fundação Tide Setubal realizou a formação Experiências de Educação Integral.

Dirigida às 33 escolas de São Miguel Paulista e reuniu cerca de 70 gestores, como diretores, assistentes de diretoria, supervisores, coordenadores pedagógicos e funcionários da DRE.  O formato escolhido permitiu mostrar quais propostas em educação integral existem hoje no país e suas vantagens e desvantagens, além de estimular a reflexão e o debate entre gestores e especialistas.

Na avaliação final, dos 31 entrevistados, 26 concordam que a educação integral traz benefícios para o aluno/escola e comunidade, destacando: ampliação de diferentes aquisições de conhecimentos dos discentes; possibilidade de outros aprendizados além da sala de aula; protagonismo por meio do desenvolvimento de projetos; e possibilidade de tornar a dimensão diferenciada e a relação com a aula regular mais produtiva, entre outros.

Professores Orientadores de Informática Educacional -  Nessa formação com os professores da rede municipal, o Núcleo de Comunicação Comunitária e o Núcleo Mundo Jovem se uniram na elaboração da proposta Convivência e Comunicação na Educação Contemporânea, com base na educomunicação e na atuação com juventude e projetos de vida. Os encontros reuniram 97 professores que, por meio de leituras, dinâmicas, debates e oficinas, refletiram sobre a aproximação educador-educando e a criatividade no uso da tecnologia, inovando o aprendizado.

Na elaboração da proposta de formação, dinâmicas de exposição de experiências já realizadas pelos professores, dando visibilidade a elas, filmes leituras e exercícios sobre o papel da escola e do educador, a percepção da juventude contemporânea e a o diálogo entre escola e território, na perspectiva de integrá-los como espaços educativos. No exercício prático uma oficina de fotografia na qual os professores captaram imagens e símbolos do território.

A avaliação aplicada no final do curso revelou a satisfação dos professores com a formação. O questionário foi respondido por 76 dos 93 participantes. Em relação ao conteúdo das aulas, em uma escala de 1 a 5, 75% atribuíram nota 5; 40% atribuíram a boa avaliação dada à formação pela metodologia e pelos materiais usados durante o curso. Na pergunta sobre do que mais gostou, a condução do trabalho e a atuação dos formadores aparecem em primeiro lugar com 50% das respostas. Em segundo, a participação do grupo, com 31%. Para a pergunta “por que o curso contribuirá de fato para o seu trabalho?”, 56% dos professores apontaram o potencial de aplicabilidade que enriqueceu a prática. Reflexão e mudanças das práticas profissionais foram apontadas em 26,3% das respostas; e oportunidade de troca de experiências por 16% dos professores.

Essas ações em parceria tiveram continuidade no ano de 2014 com ações já iniciadas no ano anterior. Fortalecer a rede de proteção social, rompendo o isolamento para atuar em um cenário de violência crescente no território; refletir e diversificar práticas também para a transformação da ambiência escolar, trabalhando as possibilidades de participação democrática entre professores, alunos e gestores; estimular o uso da tecnologia para projetos interdisciplinares de autoria dos jovens, proposta dos trabalhos colaborativos autorais do novo ciclo autoral; e fortalecer práticas educativas que alinhem esporte e educação, inspiradas em autoria, cooperação e trabalho em grupo, foram as formações que compuseram o itinerário dessa parceria.

No total, 98% das Escolas Municipais de Ensino Fundamental, as EMEFs, participaram dos cursos, com 8,5% dos seus professores; 52% das escolas fizeram três das quatro formações realizadas; 18% participaram de todas; nove escolas integram o grupo de trabalho da rede de proteção social. Muito além dos números, a parceria com a Diretoria Regional de Ensino proporciona a ampliação no raio de atuação e vai ao encontro da crença institucional no papel do Estado democrático para potencializar ações bem-sucedidas realizadas por quem atua nas periferias e conhece de perto suas demandas. Dessa forma, ganha força a ampliação de oportunidades e a garantia de direitos sociais da população de territórios vulneráveis.

Professores orientadores de Informática Educativa e a formação para o ciclo autoral – areorganização dos ciclos de aprendizagem dentro do Programa Mais Educação trouxe para os professores de 7°, 8° e 9° ano das escolas municipais o desafio do ciclo autoral. A proposta define como diretriz a construção do conhecimento por meio de trabalhos colaborativos autorais, comprometidos com a intervenção social. A proposta visa unir diferentes linguagens e aprendizados em diálogo com a realidade do aluno.

Diante do novo desafio, a DRE São Miguel buscava encontrar uma estratégia formativa para a realização do ciclo autoral. A similaridade entre a metodologia de educomunicação do Núcleo de Comunicação Comunitária da Fundação Tide Setubal e essa demanda possibilitou a reflexão sobre o uso interdisciplinar da tecnologia.

 

Os Professores Orientadores de Informática Educativa (Poies), que há dois anos participam de formações sobre tecnologia com a Fundação Tide Setubal, foram identificados como os profissionais que poderiam, então, assumir um papel interdisciplinar, apoiando, por meio do uso das tecnologias, o olhar crítico e curioso para o território, com ferramentas capazes de trazer elementos para os trabalhos colaborativos autorais.

Os nove encontros formativos, que reuniram 97 professores, abordaram metodologias de pesquisa para provocar reflexões críticas sobre o território, utilizando diferentes linguagens, como a produção de fotografias, fotonovelas, vídeos, videodocumentários, desenhos, encenações teatrais. Textos inspiradores e experiências de especialistas em geoprocessamento também integraram a formação.

Os Poies assumiram o papel de agentes integradores na interdisciplinaridade, necessária para a criação e elaboração das intervenções sociais dos jovens. Na avaliação da formação, 75% disseram que as atividades apresentaram uma didática inovadora e trouxeram subsídios para atuar no ciclo autoral; 100% identificaram possibilidades concretas de multiplicação do conhecimento com outros professores; e 66,6% afirmaram que o principal desafio é a necessidade de formação continuada.

Fortalecimento da Rede de Proteção – “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” O provérbio africano pode ser associado ao trabalho em rede. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, “a política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios”. Atuar de forma intersetorial e articulada é fundamental para promover, defender e garantir direitos de crianças, adolescentes e jovens. Mas, se, por um lado, o caminho parece claro, ele é, em si, um dos grandes desafios do trabalho em rede.

A violência nas escolas impulsionou a formação Fortalecendo a Rede de Proteção Social no Território, parceria entre a DRE São Miguel e a Fundação Tide Setubal, por meio do Programa Ação Família. O desafio da proposta era romper com uma visão fragmentada e desarticulada de encaminhamentos descontinuados, para implementar um modelo colaborativo e participativo, contribuindo para uma concepção de educação integradora. Para isso, seria preciso investir em uma mudança cultural baseada na cooperação, na horizontalidade e no reconhecimento de fragilidades e potenciais presentes no território.

A experiência do Programa Ação Família, acumulada desde 2011, com reuniões socioeducativas em escolas públicas, na escuta das famílias e na articulação de parceiros para conhecimento e uso de serviços públicos, somada à atuação junto ao Fórum de Prevenção à Violência (leia mais aqui), deu subsídios para a elaboração da metodologia dessa formação.

A primeira etapa do processo reuniu 97 gestores de 45 escolas municipais em uma ação educativa que apresentou o trabalho de secretarias e instituições atuantes na Rede de Proteção do território e propôs a reflexão sobre a experiência do trabalho em rede. Vinte e nove representantes de órgão públicos de São Miguel Paulista e Itaim Paulista participaram desses encontros, apresentaram suas ações e firmaram compromisso de atuação em rede.

A Associação dos Pesquisadores de Núcleos de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o Adolescente (Neca) também participou dessa fase, fomentando o debate com a abordagem de aspectos relevantes de facilitação e apoio à mobilização, articulação e organização da rede. A avaliação desse primeiro momento mostra que os encontros proporcionaram um melhor conhecimento dos serviços presentes na rede, ampliando o repertório de informações. Entender como os atores locais atuam faz, também, compreender algumas fragilidades, trazendo a oportunidade de refletir sobre novas possibilidades.

A partir dessa metodologia de formação, iniciou-se a segunda fase, com a criação de quatro setores para atuação sob a mesma perspectiva nas redes locais: identificação dos serviços locais e ações horizontalizadas. Em paralelo, um grupo de trabalho com dois representantes de cada setorial, com dez escolas participantes, além da DRE São Miguel, da Fundação Tide Setubal, do Instituto Alana e do Centro Social Marista, se formou para coordenar, planejar, executar e acompanhar o fortalecimento das redes locais. No fim de 2014, aconteceram dois encontros do GT, o primeiro com o objetivo de apoiar a construção da primeira reunião nos microterritórios, e o segundo para a escuta sobre eles e o planejamento dos próximos passos.

 

Interações para Viver Bem na Escola – Enquanto a formação para fortalecimento da atuação em rede conecta as escolas a outros atores da localidade no território, o curso Interações para Viver Bem na Escola fez um trabalho com professores e gestores com a perspectiva de contribuir para a transformação do ambiente escolar. Atualmente, discutem-se diferentes formas de violência nesse espaço. Violência na escola, violência da escola, indisciplina, incivilidade, entre outros. Como atuar nesse cenário diverso e múltiplo? É possível criar espaços de diálogo na sala de aula, estreitando a relação entre professores e alunos? De quem é a responsabilidade de resolver um conflito?

O curso foi realizado em duas edições no ano com quatro encontros cada, focado em formar turmas híbridas, com a participação de gestores e professores, uma dupla de cada unidade escolar participante, o que permite trabalhar não só a relação professor-aluno, mas também a relação coordenador pedagógico-professor, diretor-professor, gestores-família. Entre os professores, deveriam estar, preferencialmente, os profissionais de Educação Física ou orientadores da sala de leitura pela proximidade com os adolescentes, pelo caráter transversal das disciplinas e também por atenderem um maior número de turmas nas escolas. Ao total, 18 gestores (19%) e 42 professores fizeram o curso.

Conceitos de incivilidade, indisciplina, violência; o adolescente de hoje, o adolescente do território, valores da contemporaneidade, os desafios e as possibilidades para a educação desses adolescentes; estratégias e metodologias para a sala de aula e estratégias institucionais foram os conteúdos trabalhados durante a formação. Essas temáticas foram alinhadas com o objetivo de ampliar a compreensão das diversas dinâmicas conflituosas na escola e, assim, contribuir na formulação de conteúdos e atitudes que favoreçam a interação entre professores e alunos.

A metodologia dos encontros levou em conta, além dos conceitos, a oportunidade de experimentações de convivência, da acolhida, no momento da chegada, ao uso de diferentes linguagens para reflexão. Na primeira oficina, por exemplo, os professores foram recebidos com cravos e rosas, numa menção à música O Cravo Brigou com a Rosa. Já na vivência central, fizeram um mapa conceitual a partir da palavra convivência, elencando outras palavras relativas à prática e colocando-as em ordem hierárquica. Na sequência, assistiram a um vídeo conceitual para complementar a instrumentalização para o debate.

Três atividades diferentes embasaram o debate sobre os adolescentes. Numa delas, os participantes tinham que escolher objetos representativos para os jovens; em outro momento, realizar cenas teatrais emblemáticas de convivência dos adolescentes nas escolas. A terceira atividade foi posicionar, em um mapa, bonecos de papel onde os jovens costumam ficar, porque fazem essa escolha e o que aprendiam nesse lugar.

A mediação de conflito foi o tema do terceiro encontro e a dinâmica incluiu um café colaborativo, realizado após a conversa com especialistas sobre o tema. Entre o cafezinho e os quitutes, deveriam responder: quais seriam as ênfases programáticas de um programa de promoção de relações saudáveis? No último encontro, surgiu na pauta a criação de um curso de mediação de conflitos.

Muitas descobertas e reflexões sobre diferentes formas de atuação ocorreram nesses momentos de encontro. Foi possível identificar a diferença entre conflito e confronto, destacando que o conflito é inerente à vida e sempre haverá diferenças. Outra percepção é da visão do aluno ideal como aquele que obedece ao professor, no contraponto de uma escola que precisa contribuir para formar pessoas mais participativas e conscientes. Nesse sentido, ocorreu uma rica reflexão sobre esses desafios em um cenário de aula de 45 minutos, com muitas turmas e poucos espaços de troca, além do debate entre transmitir o currículo formal e trabalhar valores de convivência.

Na troca de ideias, o grupo destacou a necessidade de alinhamentos institucionais e coletivos, com mais tempo para planejamentos e trocas. Reconheceram que valores de convivência não podem ser vistos como um trabalho à parte da função de educador. Os desafios da tecnologia também apareceram, com relatos de que os jovens usam celulares e fones de ouvido para não prestar atenção na aula e para enfrentar o professor. E o debate foi aprofundado no sentido da necessidade de ampliar o diálogo sem dar ordens.

Na avaliação, 41,2% dos participantes elegeram a reflexão crítica e o fortalecimento pessoal em relação ao tema como o que levam do curso; 43,5% responderam que a metodologia foi do que mais gostaram; 25% destacaram o referencial teórico e bibliográfico; 20% das escolas participantes iniciaram ações de melhor viver na escola. Acompanhar esse desdobramento foi a segunda etapa do encontro da Fundação com os participantes.

Dentre os projetos apresentados, surgem implantação de assembleias escolares, apoio a grêmios, encontros em JEIFs e em horários coletivos para abordagem e multiplicação do tema e até apoio para a realização de um minicurso na parada pedagógica.

Esporte-Educação, que Jogo É Esse? – No contexto escolar, ainda há quem pense que entrar em campo nas aulas de Educação Física representa apenas uma forma de oferecer momentos de recreação para os alunos. A recreação faz parte da prática esportiva, mas existem inúmeros conceitos e experiências que ampliam as possibilidades de atuação, formação e transformação por meio do esporte. Apresentar referências de esporte-educação e proporcionar a experimentação prática aos professores de Educação Física foi a proposta do curso Esporte-Educação, que Jogo É Esse? Realizado pela Fundação Tide Setubal e DRE São Miguel, em parceria com a Fundação Gol de Letra, o curso tinha como objetivo fortalecer a identidade do professor de Educação Física e, ao mesmo tempo, mostrar práticas inovadoras.

As aulas foram divididas em quatro temas: conceitos e práticas de esporte e educação integral, esporte educacional e participação, esporte e transformação social e desafios e reflexões do cotidiano da Educação Física. Além do trabalho de esporte-educação desenvolvido pela Fundação Gol de Letra, os professores de Educação Física conheceram a metodologia de cooperação do especialista Cambises Bistrick, do projeto Cooperação, e a experiência do Movimento Nacional de População de Rua, com o futebol callejero, apresentada por Thiago de Jesus Reis, seu coordenador.

Ampliação e novos conceitos sobre esporte-educação, construção conjunta de saberes e a experimentação prática foram pontos fortes do curso, segundo os 38 profissionais inscritos. Na avaliação final, 78% dos participantes apontaram que até duas práticas pedagógicas apresentadas no curso contribuíram para sua atuação na escola. Ainda durante o curso, os professores já sinalizavam o uso do aprendizado no dia a dia. No final, sete propostas pautadas no esporte educacional foram criadas, a partir do roteiro de orientação entregue no curso. As propostas foram publicadas em um livreto, distribuído para os participantes do curso.