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Arraial do Galpão de Cidadania e Cultura do Jardim Lapenna reúne moradores e destaca tradição caipira


PROGRAMAçãO CULTURAL | GALPãO 28/07/2014

Com o tema Chegadas e Partidas o espaço do Galpão de Cultura e Cidadania se transformou, nos dias 19 e 20 de julho, em um grande arraiá.  Os trios Amizade do Forró e Rastapé Flor de Muçambê animaram a festa. O festejo foi aberto com as quadrilhas dos alunos da creche da CEI Jd. Lapenna I. Muitas crianças, entre 4 e 6 anos, dançaram pela primeira vez.  Foi o caso de Giovanna Silva Almeida, 4 anos.  “Minha filha estava linda”, comentou o pai Mário de Almeida. Já Renan dos Santos Vitorino estava encabulado, mesmo assim dançou. “Este já é o segundo ano que ele dança. Fico muito feliz em vê-lo, parece que retorno ao passado e relembro, quando era criança e dançava nas ruas de Arapiraca (AL) minha cidade natal”, conta a mãe Maria Assunção dos Santos.

E a festa não parou por aí. Para resgatar a tradição das ruas, a Fundação convidou o grupo Cordão dos Bichos de Tatuí, formado por grandes bonecos como os do carnaval de Olinda. Eles percorreram as ruas do bairro sob o som de antigas marchinhas. A curiosidade e o ritmo fizeram muitos moradores saírem de suas casas atrás do Cordão. Isabel Jesus Souza de 79 anos foi uma delas. “Estava com vontade de dançar e nem pensei, sai atrás da multidão”, explica brincando.  Maria do Rosário de 74 anos, moradora do bairro há 59 anos, também não se conteve.  “Na hora senti uma saudade do povoado onde nasci no interior de Minas Gerais. Lá participei de muitos cordões”, relembra.

No domingo a festa também contou com diversas atrações. Assim como o Cordão dos Bichos, o grupo Maracatu de Baque Virado percorreu as ruas do bairro e despertou espanto, além de muitos sorrisos, ao passar por dentro de uma feira livre. “Essa é a mágica do maracatu. Gostamos de transformar tristeza em alegria”, disse Gelson Santos, integrante do grupo.

Outra apresentação marcante foi a do grupo de Jongo Mistura de Raça de São José dos Campos. Misturando percussão e dança de roda, o mestre Laudeni de Souza chamou o público para participar. “Queremos dar continuidade a esta cultura e quando fomos convidados ficamos muito felizes em poder divulgar nosso trabalho entre os moradores”, afirma.

Além de muito forró e brincadeiras para a criançada, a festa contou com diversos tipos de bolos, caldos, vinho quente e quentão sem álcool. A novidade deste ano ficou por conta da barraca dos adolescentes do Núcleo Espaço Jovem. Com o objetivo de conhecerem o parque Hopi Hari, eles decidiram fazer um curso de culinária saudável, durante três sextas-feiras, para aprender a fazer vários quitutes. A partir dai montaram uma barraca para vender os doces e salgados.

Oficina de brinquedos – Durante os dois dias de festas mais de 100 crianças e alguns pais passaram pela oficina. “Estamos ensinando a criançada a fazer pernas de pau e a escada de Jacó, que é um brinquedo simples utilizado para contar histórias”, explica Erika Ferreira, uma das monitoras. Joana Santana, não resistiu aos apelos dos filhos e resolveu entrar. “Estou quebrando a cabeça para fazer os brinquedos, mas esta valendo a pena vê-los felizes”. 

Missa Caipira - “Não temos que ter medo ou vergonha da nossa origem. Temos que ter orgulho, pois São Paulo é uma cidade misturada de muitas chegadas e partidas.” A frase dita pelo padre Elton Linhares, da Comunidade de Jesus Mestre – pertencente a paróquia Nossa Senhora Aparecida, arrancou muitos risos dos fiéis  durante a missa caipira que ocorreu no domingo, 20 de julho. A missa contou com a presença de violeiros que cantaram modas de viola e fizeram muita gente relembrar suas origens, até o padre! “Eu fui feito na Paraíba, mas nasci em São Miguel”, disse brincando. Para Laurita Maria de Almeida, assistir a missa caipira, esta se transformando em tradição.  “Acabo sempre relembrando o tempo que morei em Minas Gerais.”

Já o que encanta Maria do Carmo Vieira, moradora do bairro há mais de 20 anos, é a alegria. “É sempre muito animada, como as da minha terra de Bom Conselho (Pernambuco)l”. Depois da missa o padre convocou os fieis para seguirem em procissão até o Galpão, onde muitas famílias já esperavam para começar a festa de domingo. A apresentação da quadrilha Juvenil “Um passe para a arte”, arrancou aplausos de todos.

“O Galpão está promovendo aqui uma grande festa para as famílias. Não temos equipamentos públicos e o espaço se tornou a casa de muitos. E aqui que esta comunidade constrói laços, valores e se articula. E é aqui que muitas vezes acontecem as grandes chegadas”, destacou o padre.        

Quadrilha Jogo da Vida – Quem vai a uma quermesse sempre espera assistir uma quadrilha tradicional, certo? Nem sempre. Pelo terceiro ano consecutivo, 30 jovens  de diversos núcleos e a equipe do Galpão  surpreenderam o público com uma quadrilha teatralizada. Ao entrarem ao som da música Cio da Terra, cantada pela dupla Pena Branca e Xavantinho, caracterizados com roupas do campo e se fazendo passar por retirantes, despertaram olhares curiosos da plateia.

Sob o som do Trenzinho Caipira de Heitor Villa Lobos, trocaram suas roupas e se transformaram em personagens diários das grandes cidades como policiais,  cobradores e motoristas de ônibus, encanadores, babás, taxistas, enfermeiros, empregadas domésticas, jardineiros, motoboys, boxeador, dentre outros. E ai sim, começou o “jogo da vida”. Uma história narrada como um jogo de futebol.

“A ideia da quadrilha surgiu por conta da Copa. Queríamos mostrar quem são os verdadeiros heróis que permitiram que o evento acontecesse, ao mesmo tempo, destacar que a maioria dos trabalhadores envolvida veio de diversos locais, a roça foi um deles”, explica Inácio Pereira dos Santos Neto, coordenador de cultura da Fundação Tide Setubal. 

Durante um mês e meio, os jovens ensaiaram a quadrilha e contribuíram com ideias, em cima do tema da festa julina “Chegadas e Partidas”.  “Eles próprios confeccionaram as fantasias”, conta Simone dos Santos Silveira, assistente de coordenação do Galpão. Os ensaios foram abertos e todos os jovens foram voluntários. “A vontade em participar sempre esteve presente entre eles”, completa Viviane Soranso,  do Espaço Jovem.

E essa força de vontade se refletiu na plateia. Muitos se emocionaram. Maria Vanilda de Oliveira, moradora do Lapenna há 20 anos, foi uma delas.  Sou de Pernambuco, da cidade de Serra Talhada, sai de lá com 22 anos e vim para São Paulo. Aqui construí minha vida.  “Há quatro anos, meus filhos frequentam a Fundação e Fiquei muito emocionada por ver a história e minha filha como uma das personagens, e me lembrei da minha terra natal”. Para a filha Vanessa Oliveira participar da quadrilha e perceber a emoção do público foi emocionante. “Fizemos uma quadrilha diferente mostrando para todos a importância de reivindicar seus direitos”.

Outra também que não se conteve foi Caroline Farnesi Borriello, integrante do grupo Jongo Mistura de Raça de São Jose dos Campos. “Decidi ficar para assistir, mas nunca pensei em ver isso. Eles estão de parabéns, conseguiram mostrar todas as pauladas que a gente leva diariamente. Isso sim é o jogo da vida”, finaliza.