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Moradores realizam acupunturas no Lapenna, inspirados pelo Plano de Bairro


INFLUêNCIA EM POLíTICAS PúBLICAS | GALPãO | FORTALECIMENTO 20/10/2017

Por Mariana de Souza Caires e Thiago Borges – Periferia em Movimento 

Construir um plano de bairro pode, a princípio, parecer algo bem burocrático, sinônimo de ir em reuniões longas, em que cada um dá sua contribuição e, no fim, todos tentam negociar um projeto em conjunto com a Prefeitura, para transformar o espaço onde vivem. Mas na verdade, o Plano de Bairro do Jardim Lapenna é uma construção coletiva que vai além dos formatos restritos de reuniões e negociações. O processo tem englobado, desde o início do ano, ações práticas em diferentes espaços, chamadas de acupunturas.

Entre julho e agosto de 2017, aconteceram alguns desses momentos de atuação coletiva, planejados dentro do calendário do Plano de Bairro. De tal forma, a barraca do Plano de Bairro na Virada Caipira em julho, a construção da Praça dos Sonhos, e a atividade da Virada Sustentável, ambas em agosto, trouxeram na prática os aprendizados e objetivos alinhados ao Plano de Bairro, para que se consolide um Território de Direitos.

Os resultados das atividades são frutos de uma boa articulação entre moradores, fundações Tide Setubal e Getúlio Vargas, assim como das oito associações que compõem o Colegiado do Jardim Lapenna: Conselho Gestor da UBS, Creche Lapenna 1 e Creche Lapenna Mutirão, Organização SOS Lapenna, Centro da Criança e do Adolescente (CCA), Sociedade Amigos do Lapenna, União Comunitária das Mulheres e Programa Ambientes Verdes e Saudáveis (PAVS).

Acupunturas: Momentos de criação prática coletiva

A Virada Caipira, o Mutirão de construção da Praça dos Sonhos e a organização de ações com Catadores na Virada Sustentável foram momentos de socialização coletiva em que moradores estavam unidos pensando em melhorias para o Bairro, reunindo pautas locais e trabalhando em coletivo.

Durante a Virada Caipira, nos dias 8 e 9 de julho, entre as barracas de comidas e brincadeiras, estava a do Plano de Bairro, com panfletos sobre o projeto e fichas em que os moradores poderiam opinar sobre melhorias para o bairro. “A presença da barraca na festa foi uma oportunidade de trazer o Plano de Bairro a pessoas que não foram em outros momentos de construção por diversos motivos”, mostra Marcelo Ribeiro Silva, gestor do Galpão da Fundação Tide Setubal.

A festa, que existe há oito anos, busca valorizar o patrimônio cultural material e imaterial da comunidade local e de São Miguel Paulista e é, portanto, mais um momento de coesão, que favorece a criação de um olhar coletivo e político.

Durante a Festa Junina, Camila da Silva, de 10 anos, e seus amigos, ficaram animados com a possibilidade de depositar suas propostas para o Plano de Bairro: “Eu gostaria que não jogassem lixo na rua do bairro e que tivesse uma praça com brinquedos pras crianças aproveitarem”, disse. Ela participou do cortejo pelo bairro e também da quadrilha, que teve como tema “No cultivo do afeto, o humano reinventa o seu tempo”.

E esse olhar coletivo para o bairro não parou por aí. Em agosto, outras duas acupunturas resgataram o ideal do Plano de Bairro entre os moradores. Inclusive, as duas ações que se seguiram tiveram relação com os sonhos depositados por Camila e seus amigos.

Praça dos Sonhos

No dia 18 de agosto, teve início a construção coletiva da “Praça dos Sonhos”. Entre chuvas e desafios, moradores e voluntários do Hospital Sabará reformaram duas praças da região, algo que já havia aparecido nas sugestões coletadas pelo Plano de Bairro.

O projeto da Praça vem de anos, desde 2014, quando o Coletivo Caixa Preta, que atua com projetos e intervenções urbanísticas na região, fez um trabalho de criação de propostas para a praça ao lado do Galpão de Cultura e Cidadania, realizando atividades juto aos alunos da E. E. Pedro Moreira Matosas. Nele, as crianças e adolescentes do bairro foram estimuladas a pensar no espaço de seus sonhos. Dando continuidade ao processo, alunos do curso de arquitetura da Universidade Cruzeiro do Sul, ao lado do professor e arquiteto Samuel Derestes, criaram diversas versões do projeto de reurbanização da praça, e a Prefeitura Regional fez a doação de materiais e mobiliários urbanos para a reforma, como bancos e mesas com tabuleiros. De lá pra cá, com a ajuda de diversos parceiros, processo culminou no desenho da praça que foi construída no mutirão.

A acupuntura contou com a participação de moradores, de membros do Colegiado, da Fundação Tide Setubal, e também de um grupo de voluntários muito especial. Cerca de 100 funcionários do Hospital Infantil Sabará e do Instituto PENSI desembarcaram no Lapenna em uma ‘missão secreta e solidária’ organizada pela ‘Epic Journey’, sem saber o que lhes esperava.

Para o adolescente Daniel dos Santos Gronga, 14 anos, o mutirão foi uma recuperação de um espaço que estava em risco. “O bairro que a gente tem precisa de ajuda. Eu tava com medo da praça virar uma biqueira até”, comenta. Durante a ação, um morador doou bancos, o que significa para Daniel, uma mudança, pois “o pessoal está se preocupando mais”.

Quando um morador se aproximava e colocava a mão na massa pela Praça, ele consequentemente ficava por dentro do processo do Plano de Bairro. Foi o que aconteceu com a Claudia Regina Cruz, de 33 anos, que mora no Lapena há 16 anos e trabalha na creche. Claudia mostra que apesar de não estar acompanhando de perto as discussões do Plano de Bairro, sabe que se trata de melhorias para a comunidade. Como ela observa, o Lapenna de quatro anos atrás não tinha tudo o que tem hoje, e ainda existem muitos sonhos coletivos: “o que tá estragando é a enchente, falta de iluminação, de comunicação, não tem ônibus desse lado da linha, a gente quer uma comunidade bonita, tá melhorando, com aparência melhor, pinturas, calçadas”.

“Ter a contribuição de pessoas de fora só reforça o senso de coletivo e demonstra aos moradores que a união de todos nos traz uma sociedade melhor”, afirma Cleiton da Silva Santos (o Kaki), vice-presidente da Sociedade Amigos do Jardim Lapenna.

Luiz Antonio Ribeiro, 50 anos, é oficial de manutenção no Hospital Sabará, morador de Santo Amaro e foi um dos voluntários que atravessaram a cidade na ação no Lapenna. Essa foi sua primeira ação de voluntariado e ele acredita que “é importante se mobilizar porque se não nos mobilizarmos ninguém vai fazer”. Segundo ele, “a Prefeitura poderia fazer um pouco mais para melhorar de fato a vida das pessoas”, acredita.

E para o Prefeito Regional de São Miguel Paulista, Edson Marques, que conferiu a ação presencialmente e até doou materiais e recolheu entulho, “a ação é importante pelo engajamento e por gerar conhecimento, e o Plano de Bairro está sendo importante para a população poder discutir o destino do próprio bairro”.

Café com Catadores na Virada Sustentável

Há três anos, o Jardim Lapenna recebe atividades da Virada Sustentável, que acontece em toda a cidade. Em 2017, a Virada foi uma oportunidade de tirar do papel uma das questões também levantadas desde as primeiras reuniões do Plano de Bairro: o acúmulo de lixo, que tanto atrapalha a vida da população local com o mau cheiro e com as enchentes.

No dia 25 de agosto, o Café com os Catadores de lixo reciclável do Jardim Lapenna aconteceu na Sede do SOS Lapenna, e resultou em melhorias para os próprios catadores e para o bairro como um todo. Assim como nas outras acupunturas, a ideia foi trazer efeitos também a médio e longo prazo no Lapenna.

Com a ajuda da articulação da ONG SOS Lapenna e do PAVS (Programa Ambientes Verdes e Saudáveis), que fizeram um estudo aprofundado sobre o tema, surgiu a proposta de que os catadores que moram na região recolhessem e revendessem o lixo reciclável do bairro na Sede do SOS Lapenna. Ali na Sede, o material será pesado e comprado, e então revendido à Cooperativa Guerreiros de Deus, da Zona Leste de SP.

A mudança no destino dos lixos recicláveis do bairro poderá “melhorar a questão dos resíduos dentro do território”, assim como “mostrar que os catadores podem ser mais valorizados”, conta Caroline Joana, agente do PAVS.

Para Carlos Borel de Carvalho, o Dida, membro do Colegiado e criador da ONG SOS Lapenna, “além da questão ecológica, pensamos na qualidade de vida dos catadores, para que eles tenham melhores condições financeiras, vendendo seu material a preço justo”.

No encontro, os catadores também foram incentivados a cuidar da própria saúde, com a atenção das agentes da UBS do bairro. “O intuito também é trazer os catadores para cuidar da saúde, tomar vacinas, acompanhar a pressão. Como eles trabalham com os resíduos e com o levantamento de peso, é importante que eles façam o acompanhamento”, diz a agente de saúde Fabiana Meixe.