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Possíveis significados da cultura caipira na sociedade contemporânea


24/06/2008

A proximidade do mês de junho nos leva a retomar o tema das festas populares, das danças tradicionais, elementos do mundo caipira que, dentre os diversos olhares e possibilidades de interpretações possíveis, envolve o entendimento da luta de setores das camadas populares para preservar seus valores e para se fazer reconhecer na história como cidadãos brasileiros. A recuperação dessa história representa também a valorização de uma auto-estima perdida, da união em torno de valores e crenças comuns e, sobretudo, da abertura de espaços que façam circular e valer seus interesses.

A articulação entre passado e presente possibilita a criação de um diálogo em que costumes e valores que fazem parte de nossa história possam ser reconhecidos como integrantes da história pessoal de cada um. Trata-se de viver um espaço de pertencimento no qual a modernidade não consiste em começar tudo de novo, mas no sentir-se enraizado, pertencendo, apropriando-se de uma herança das gerações anteriores e reelaborando-a.

Refletir sobre essa herança é retomar dimensões fundamentais do ser humano e por isso a discussão é carregada de emoção e afetividade. Cito como exemplo disso as muitas pessoas que ao lerem ou assistirem aos documentários do projeto Terra Paulista - projeto que coordenei pelo Cenpec - fizeram depoimentos emocionados sobre sua história pessoal enlaçada a partir de algum aspecto contido no projeto. A cultura caipira percorre os caminhos da terra, da natureza, da vida na roça com sua simplicidade no modo de ser, de falar, de comer. Ao lado disso, estão as festas, a religiosidade, a viola, os causos. Todos esses elementos calam fundo na alma de cada um de nós, re-significam nosso pertencimento e abrem possibilidades de articulação com o contemporâneo.

Encontrar caminhos que possam traçar alternativas ao consumismo desenfreado e imediato, à superficialidade, à transitoriedade das ações e dos laços afetivos e, sobretudo, às questões fundamentais do meio ambiente: (como o desmatamento e o aquecimento global) está no centro do debate tanto da sociedade civil como das políticas públicas. Talvez valores constituintes do universo caipira tenham levado esses sujeitos a não se afastarem das dimensões essenciais do homem, que têm a ver com a nossa condição humana e, portanto, tocam a alma de todos os que compartilham essas vivências e, por isso mesmo, podem apontar caminhos aos desafios contemporâneos.

Aprender a valorizar nossas raízes, nossas identidades e nosso patrimônio para depois olhar para fora parece ser fundamental. É o reconhecimento de quem somos, da aceitação e incorporação desses valores e modos de ser no nosso fazer cotidiano e no desenho das políticas públicas que poderá nos unir no reconhecimento e respeito das diferenças.