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A educação para a igualdade num contexto de questionamentos


VOZES URBANAS | @ACAOMACROPOLíTICA 24/05/2019

fotos: José I DiCampana Foto Coletivo

 

 

Neste momento da história do país, há um tema que tem constantemente aparecido nos meios de comunicação cercado de polêmicas e opiniões controversas: a educação. Qual modelo de educação seguir? O que é uma educação que inclui a pluralidade? Por que homens, mulheres, lgbts, brancos e negros têm oportunidades diferentes no sistema educativo? De que forma a pluralidade deve entrar no território escolar? Qual o papel da sociedade na construção da diferença entre os gêneros?

 

São perguntas complexas e que, desde o último mês de abril, circundam o projeto vozes urbanas. Para Viviane Soranso, da área de Ação Macro Política da Fundação Tide Setubal, os eventos de 2019 têm como objetivo “discutir temáticas e colocar em pauta as desigualdades educacionais com recorte em gênero e raça. Ao longo do ano teremos sete encontros com novos convidados, novos desdobramentos do tema e novos debates”.

 

Neste primeiro encontro, chamado “Educação para Igualdade: panorama e desafios”,a mesa, mediada por Iracema Santos do Nascimento, professora na Faculdade de Educação da USP, contou com as presenças de Bel Santos Mayer, coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário – Ibeac e gestora da Rede LiteraSampa (depois de ler sobre o Vozes Urbanas clique aqui para ler a entrevista da Fundação Tide Setubal com Bel), Heloisa Buarque de Almeida, professora de Antropologia da USP e uma das fundadoras da Rede Não Cala – USP (Rede de Professoras e Pesquisadoras pelo fim da violência sexual e de gênero na universidade) e o ex-ministro da educação Renato Janine Ribeiro.

 

Os dados apresentados por Iracema não são muito animadores. Segunda a pesquisa nacional por amostra de domicílios - pnad, de 2015 , mais de dois milhões e quatrocentos mil  pessoas da faixa etária escolar obrigatória (04 à 17 anos) estão fora da escola, com ênfase para o ensino infantil e médio. Destes,  53% são crianças com famílias com renda per capita de meio salário mínimo por mês, ao mesmo tempo em que 76% da população brasileira que recebe menos de R$150 por mês são de negros e negras.  Desta forma, é possível afirmar que a exclusão escolar atinge mais intensamente este perfil da população.


Com relação às questões de gênero, a mediadora ressaltou que, no Brasil, a sociedade convive diariamente com a transfobia institucional. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apenas em 2017 foram contabilizados 179 assassinatos de travestis ou transexuais. Entre os e as estudantes declaradas LGBTQI+ , 60% se sentem inseguras na escola e mais de 50% delas já foram assediadas nestes espaços educativos.


Os convidados e convidadas foram provocadas a exporem um recorte mais aprofundado deste panorama e de como estas desigualdades se verificam na educação e, para isso, levaram suas experiências de vida, pessoais e profissionais. Heloísa Buarque de Almeida discutiu a importância de se falar de gênero na escola. Apresentando a gravura de Joaquim Torres Garcia, “América Invertida” , a professora ressalta que “o mapa do mundo é uma convenção social, que tem uma história e uma política. O mapa varia de acordo com a sociedade que o utiliza. O mesmo ocorre com gênero, que também é uma convenção social com aparência de natureza”

 

Heloisa acha importante a compreensão desta questão para que se possa entender que os papéis sociais de homem e mulher não têm origem na biologia. “Ser mulher e ser homem varia muito nos diferentes contextos históricos. Margaret Mead, em sua pesquisa de campo na Nova Guiné, observou três organizações sociais diferentes. Uma onde homens e mulheres eram muito afetuosos entre si e com as crianças. Outra onde havia muita agressividade e competitividade. Elas tinham um padrão cultural diferente. E ainda uma terceira onde os homens eram os cuidadores e as mulheres as competitivas e provedoras. A primeira coisa que esse exemplo nos mostra é que nem toda cultura diferencia homens e mulheres. A segunda coisa é que nada é natural. Afetividade, cuidado, competitividade, são construções sociais também”

 

 

A conclusão da professora é de que se todos esses atributos não são naturais eles são ensinados. E a escola, como lugar de referência nas questões de ensino aprendizagem pode e deve inserir as questões de gênero no currículo e também nas relações interpessoais destes espaços. “É mais fácil a gente permitir a menina jogar futebol do que o menino brincar de boneca. Porque, talvez, a gente veja uma hierarquia entre o masculino e o feminino e o menino vai “descer” um degrau nessa escala hierárquica. As escolas precisam parar com a separação de brinquedos de menino e de menina. Mesmo que haja o embate com outros atores, porque mesmo o embate é necessário”.

 

Bel Santos Mayer complementou a reflexão sobre a produção das desigualdades no ambiente escolar agora sob a perspectiva racial. Especialista em trabalhar com a literatura em regiões periféricas, Bel usa o exemplo das escolhas bibliográficas como um fator de reprodução de um modelo que privilegia sempre o mesmo perfil de autor. “Precisamos ficar atentas também ao que escolhemos. Quantas vezes selecionamos histórias escritas por mulheres, por negros e negras e, a partir delas, ampliamos o olhar sobre as realidades plurais? Um grande desafio nosso na construção de igualdades é pensar como estamos construindo oportunidades”

 

  

 

“A igualdade é também um tema muito recorrente nas ciências sociais”, afirma Renato Janine Ribeiro. No entanto, para o ex-ministro, a questão central é olhar para a igualdade “no ponto de partida”, ou seja, nas oportunidades ofertadas à todos e todas. Para isso, é preciso “eventualmente, compensar por uma ação pública diferenças que são injustas, pois vivemos numa sociedade desigual. Essa ideia de ponto de partida igual precisa ser construída por políticas públicas de trabalho e renda, moradia, saúde, educação e cultura”.

 

 

O retrato final deste primeiro vozes urbanas 2019 é uma paisagem plural e complexa no que tange às desigualdades de gênero e raça na educação. A Fundação Tide Setubal enfrenta esta questão mobilizando sociedade civil, investimento social privado e poder público para, juntos, refletir sobre caminhos a seguir e possibilidades de superar.

 

 

No próximo encontro, dia 29 de maio, o movimento secundarista entra na pauta.. Apesar de diversas conquistas, qual o verdadeiro legado das ocupações de 2015? O que mudou na gestão escolar? Que oportunidades e políticas públicas estamos construindo para pavimentar opções de um futuro para esses jovens? De que forma a educação olha para as relações étnico-raciais e de gênero no currículo escolar, como podemos articular e mobilizar os diversos atores e segmentos da sociedade em prol de uma agenda fundamental para o país?

 

O debate contará com: Joana Buarque de Gusmão, Macaé Maria Evaristo dos Santos, Marcelo Rocha e Denise Carreira (mediação).

Saiba mais em:

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