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Desigualdades estruturais ainda promovem o silencimento de negros, mulheres e periféricos no Brasil


10/07/2019

 

Desigualdades estruturais ainda promovam o silencimento de negros, mulheres e periféricos no Brasil

 

O segundo dia de atividades do seminário “Democracia, Educação e Equidade: uma agenda para todos” colocou em pauta um tema transversal que percorre todas as agendas do desenvolvimento sustentável: as desigualdades de raça e de gênero. Ou seja, a abissal diferença de oportunidades disponíveis para homens e brancos em relação a mulheres e negros no Brasil.

 

Parece desnecessário provar, recorrendo a números e pesquisas de fontes referendadas, o cenário de desigualdades no maior país da América Latina. Se necessário for, os dados são diversos. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2017, a renda média salarial de um branco no Brasil foi de R$ 2.814; uma pessoa negra ganhou em média R$ 1.606.

 

A taxa de analfabetismo é mais que o dobro entre pretos e pardos (9,9%) do que entre brancos (4,2%). De acordo com o Atlas da Violência 2017, a população negra corresponde à maioria (78,9%) dos 10% de indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. A mesma pesquisa aponta que a taxa de homicídios de mulheres negras em 2016 foi 71% superior à de mulheres não negras.

 

Para a professora do departamento de sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole, Márcia Lima, participante da mesa “Desigualdades de raça, de gênero e nas periferias urbanas e a emergência de novos agentes políticos”, só não vê – e encara – a realidade quem não quer.

 

De cara, deixou claro que as reflexões que levou para o seminário levam em conta a conjuntura pós-eleições de 2018. “Um momento delicado. Vivemos um cenário nacional e internacional de desafios cuja principal marca é o retrocesso da agenda de direitos. Agenda essa construída a duras penas por diversos movimentos sociais.”

 

Sua fala é um chamado no sentido de recuperar a participação dos negros e dos movimentos negros no debate sobre democracia e equidade. Para ela, são duas dimensões neste espectro: a desigualdade como fenômeno multidimensional e persistente, que exige políticas públicas para além das práticas afirmativas. E a própria agenda de direitos em si, com suas questões distributivas e identitárias.

 

O debate sobre democracia, educação e equidade, passa, fundamentalmente pela escola. Esse espaço de construção social que recorrentemente reproduz as estruturas de exclusão e silenciamento de minorias. “As organizações imitam modelos excludentes da sociedade. No ambiente escolar se vê claramente essa reprodução. Trata-se de um espaço que discrimina de maneira muito forte.”

 

Os exemplos são muitos. A baixa representatividade de pessoas negras em ambientes escolares, especialmente no Ensino Superior – são poucos os professores, diretores, reitores, cientistas, etc. negros. A produção científica e intelectual negra e de mulheres que é pouco valorizada. Márcia provocou: “Onde está a literatura negra nas escolas?”

 

E, como aponta o Preâmbulo da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável - “Nós nos comprometemos a que ninguém seja deixado para trás” - o desafio atual é compreender os mecanismos indutores de desiguldade, combatê-los, para que todos, sem excessão, possam ter seus direitos garantidos.

 

“Sem enfrentar esses processos, essas violências todas, sem acabar com modelos institucionais, sem olhar para as políticas publicas, não dá pra discutir desigualdade. Temos que lutar contra as desvantagens pré-determinadas e o isolamento social provocado pelo racismo estrutural. Precimos exercer o enfrentamento sistemático da desigualdade”, afirmou a professora Márcia Lima.

 

Protagonismo das mulheres negras

 

Flávia Rios, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa Guerreiro Ramos, fez um exercício matématico, uma soma simples de características: “No Brasil, o cruzamento de ser mulher, negra e de periferia, representa uma conta que te coloca na linha de frente da violência.”

 

Sua pesquisa se dedica a pensar como o tema das relações raciais e de gênero se articulam nos últimos 40 anos. De acordo com a professora, são indiscutíveis as conquistas e a institucionalização de toda a política de igualdade racial realizada por mulheres negras.

 

“Meu olhar é para o protagonismo das mulheres negras na nossa história. São algumas gerações que vêm mudando a história deste país. A primeira, dos idos de 1975, é a que rompeu barreiras. Foi a primeira geração de mulheres negras dentro das estruturas de poder. A segunda, dos anos 2000, é marcada pela chegada das meninas na universidade pública. A terceira é formada por mulheres negras mais jovens menos presente nos empregos domésticos brasileiros e empoderadas por recursos de comunicação e tecnologia.”

 

De novo, a narrativa aqui é a importância da representatividade e do esforço em mapear, reconhecer e valorizar as conquistas de indivíduos e movimentos pelos direitos humanos para combater desigualdades estruturais que são seculares nos limites brasileiros.

 

A regra e a exceção

 

O discurso da meritocracia também cai por terra quando histórias como a de Enderson Araújo emergem dos subúrbios brasileiros. O menino, filho de mãe solteira, que reprovou a quinta série quatro vezes porque precisava trabalhar, que viveu a escassez de comida em casa e que, segundo ele, conseguiu ter o mínimo graças a programas de repasse de renda do governo, hoje é uma referência em comunicação e empreendedorismo. “Mas as oportunidades não são as mesmas para todo mundo”, lembrou.

 

Enderson é criador do Grupo de Comunicadores Jovens Mídia Periférica e hoje atua em múltiplas plataformas de comunicação. Mas, até virar exceção, foi regra. “Todo jovem na comunidade vive sob a condição do imediatismo. Ensino Médio? Não. É o primeiro emprego. A pressão para trabalhar. Antes de sermos violentos, somos violentados. Na periferia falta educação, acesso a transporte, condições de moradia.”

 

Hoje, às vésperas de adentrar o Ensino Superior, lembra que as desigualdades entre as pessoas do centro e da periferia, do morro e do asfalto, da roça e da cidade são muitas. Se o sujeito for negro então, a questão é ainda mais complexa. “O que eu via nos programas policiais da tevê é uma imagem do tempo escravocrata: o capitão do mato correndo atrás do escravo fujão. Aí eu vi que precisava contar o que via de bom dentro da comunidade. Ia pra lan house pra contar essas histórias. Ali começou a minha virada.”

 

Leia mais sobre as atividades do primeiro e do segundo dia do seminário aqui.