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Com comida e com afeto


23/08/2019

 
 
Por Daniel Cerqueira
 
 
Quando se fala em comer, muita gente associa a ação a algo puramente biológico, uma necessidade do corpo. Mas, comer é também algo relacionado ao modo de vida das pessoas e aos seus hábitos, gostos e histórias. Por isso, há uma relação íntima entre a comida e quem a prepara. Partindo desta ideia, a Fundação Tide Setubal produziu o livro “Cozinha de Afetos”, em comemoração aos dez anos da Oficina Escola de Culinária. 
 
Desde 2009, o projeto da oficina escola forma moradores e moradoras do Jardim Lapenna e região, com incentivo à geração de renda e como forma de garantir direitos por meio da inserção das alunas e alunos na vida em comunidade. As pessoas que passam por lá ganham outra perspectiva de vida e começam a ter sonhos.
 
Ao mesmo tempo em que se fortalecem, elas movimentam a comunidade, pois geram renda para a família e, com isso, mudam as relações com o marido, com os filhos e com as demais pessoas ao seu redor. Ou seja, pode-se transformar a realidade das pessoas das periferias e enfrentar as desigualdades sociais por meio da culinária.
 
De acordo com Rose Nugent Setubal, conselheira da Fundação Tide Setubal, as motivações para a produção do livro foram o registro das histórias das participantes da Oficina Escola e a consequente celebração dos dez anos do projeto - e foi proposta a realização de uma oficina de escrita para transformá-lo em realidade. “Pudemos ouvir vários depoimentos emocionantes, histórias inspiradoras, com muitos momentos de dificuldades, mas também de superação. Creio que todas que participaram saíram fortalecidas e confiantes para prosseguir nesse caminho de transformação, mudando suas vidas, de suas famílias e comunidades”, destacou, no prefácio de apresentação da obra.
 
A vasta quantidade de resultados íntimos e pessoais foi determinante para a produção de um livro que contasse a história da Oficina Escola de Culinária com narrativa que fosse além da cronologia dos fatos, e que valorizasse as histórias das pessoas que por lá passaram. Por isso, a Fundação convidou a jornalista Ana Holanda para coordenar a elaboração do livro.
 
Ana desenvolve uma forma de narrar denominada “escrita afetuosa” na qual, segundo ela, é possível retomar “o papel da escrita de onde nunca devia ter saído. A escrita é um espaço de conversa com o outro e não algo superficial. É preciso afetar o outro para conversar com ele.”
 
 
Foto: Divulgação
 
 
O ponto de partida para a produção do livro foi a escolha de personagens que, ao longo dos anos e conforme passassem pela Oficina Escola de Culinária, tivessem uma grande identificação com o espaço. Foram selecionadas 10 mulheres, quase todas que ainda trabalham com algo ligado à culinária ou gastronomia e que, ao buscarem aprimorar o cardápio da família, acabaram se transformando durante esse processo. 
 
A partir daí, Ana Holanda trabalhou na produção do livro em três etapas. Na primeira foram feitas entrevistas com cada uma das personagens. Após esta aproximação com as pessoas, fez-se uma oficina de escrita focada em alimentos, ou, nas palavras de Ana, “um momento para elas perceberem que a comida está intimamente ligada a elas e à vida delas. Com isso, as pessoas passam a sentir vontade de escrever.” Neste encontro, as participantes produziram textos nos quais a história da Oficina Escola de Culinária e as suas histórias pessoais se entrelaçavam. 
 
A última etapa envolveu a estruturação do livro e dos capítulos que o compuseram - e esse passo contou com participações dos jornalistas Debora Gomes e Eduardo Alves.
 
“Nós queríamos um livro para ser usado e não para ficar na prateleira. Em outras palavras, um livro onde a comida e o afeto façam parte também da vida das pessoas que o recebem”, finaliza Ana Holanda.