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Projeto do Moradigna oferece orientação virtual para moradoras do Jardim Lapena reformarem banheiros de casas


PRáTICA DE DESENVOLVIMENTO | IMPRENSA | GALPãOZL 19/08/2020

Por Amauri Eugênio Jr. / Moradigna (reprodução)


Estima-se que 40 milhões de pessoas vivam em casas insalubres, ou seja, em ambientes onde elas estão expostas a riscos. E o espaço reservado para os banheiros têm papel fundamental nos cuidados com à saúde.

O projeto Reforma Virtual, realizado pelo Moradigna em parceria com o Galpão ZL, teve como foco reduzir os efeitos da Covid-19. A formação de mulheres para a melhoria desses espaços no Jardim Lapena teve como ponto de partida o curso Elas Constroem, oferecido no Galpão ZL pelo Moradigna em março de 2020, antes da pandemia.

“A quarentena deu luz para a falta de ambiente para a higienização adequada das famílias que moram ao redor do Galpão. Resolvemos transformar a parte prática do curso uma maneira para atuar em ambientes insalubres e convidamos o Galpão e a Fundação Tide Setubal para financiar o programa com a mão de obra das mulheres que haviam feito parte do curso”, descreve Matheus Cardoso, sócio-fundador do Moradigna.

Sete alunas do curos foram selecionadas para esta fase do projeto e receberam mentoria para realizar as intervenções nos banheiros de suas casas. Elas receberam cerca de R$ 10 mil em materiais de construção e mais R$ 1.200 em ajuda de custo para realizar a reforma do cômodo, além de terem recebido orientações online oferecidas pela equipe do Moradigna por meio de videochamadas.Para Marcelo Ribeiro, coordenador de Prática Local da Fundação Tide Setubal, a articulação entre o Galpão ZL e o Moradigna, em conjunto com o protagonismo das alunas por meio da execução das reformas, ajuda a mostrar como o debate sobre universalização do saneamento básico na sociedade é urgente e a mostrar possíveis caminhos para setores diversos da sociedade civil agirem nesse sentido.
 

“Este conjunto de ações mostra como daria para diminuirmos os problemas relacionados à questão do saneamento. Foi necessário construir fossas em algumas casas, pois não havia nesses espaços. Existe potencial para [desenvolver] microações que possam mitigar a questão do saneamento”, pontua.

Matheus Cardoso segue a mesma linha ao falar como a ação mostrou ter custo x benefício e impacto muito grandes, além de considerar que as alunas e suas respectivas famílias sentem-se motivadas a promover mais melhorias, além de o projeto ter mostrado que mais iniciativas com esse perfil podem ser colocadas em prática.

“Ao fazer um cômodo, como o banheiro, a família fica instigada a melhorar toda a casa, pois vê como faz diferença. O nosso intuito é que esse não tenha sido apenas um projeto pontual, pois o impacto observado é muito grande.”

O custo x benefício de investir em iniciativas como essa vai além da realidade doméstica e o debate sobre o tema é urgente, uma vez que 66,3% das residências tinham acesso à rede geral ou fossa ligada a uma rede de esgoto segundo a edição 2019 da PNAD Contínua e quase 100 milhões de brasileiros não têm acesso a uma rede de coleta de esgoto. Esse cenário contribui para números alarmantes: em 2018 ocorreram mais de 230 mil internações e 2.180 mortes decorrentes de doenças de veiculação hídrica, além de que as interanações causadas por doenças de veiculação hídrica nesse período resultaram em R$ 90 milhões gastos pelo SUS.


Construindo mudanças

Joyce Santos Correia, 25, foi uma das alunas do curso Elas Constroem contempladas pelo projeto Reforma Virtual. A jovem, que já tinha contato prévio com o universo da construção civil por intermédio de seu pai, que é pedreiro, efetuou a reforma com orientações dele e da equipe do Moradigna, que a auxiliava por videochamadas.

Se, por um lado, ela pôde ser orientada para fazer as intervenções necessárias no cômodo, o curso a possibilitou fazer um intercâmbio de conhecimento: “Durante o curso, eu aprendi muitas coisas, as quais para o meu pai, sobre algumas dicas que, acho, ele não sabia.”

O processo, que a motivou a fazer novas intervenções em demais pontos na casa, como no teto - “foi colocado gesso, que está caindo e representa perigo para mim, meu marido e meu filho” -, representou melhorias significativas na qualidade de vida para ela e família. “O banheiro não tinha pia, o piso estava quebrado no chão, não havia azulejo, havia um pouco de mofo e os fios estavam expostos. Agora está mais fácil para lavar as mãos e ficou mais prático, mais bonito e um ambiente bem mais agradável. E, sim, trouxe qualidade de vida muito melhor.”

 

Eliane Maria Nunes durante o processo de reforma / Moradigna (reprodução)

 

Pavimentando o recomeço

“Mais viva.” É deste modo como Eliane Maria Nunes, 59, descreve o seu estado atual após ter participado do curso. Nas suas próprias palavras, Eliane “estava em depressão profunda quando fiquei sabendo do curso”.

Após ter sido escolhida para participar do projeto para reformar o banheiro, ela descobriu que o cômodo tinha um problema estrutural: “quando dei o primeiro golpe no chão para trocar a tubulação, o piso afundou 30 cm - estava tudo oco. Precisei quebrar tudo e fazer um novo encanamento de água e esgoto. Foi difícil, pois precisamos começar do zero.”

Por fim, mais do que as melhorias físicas no banheiro - “é prazeroso usar um lugar  arrumado, com piso e paredes em bom estado”, o curso e a reforma representam, de certo modo, um novo começo para Eliane. “está sendo muito bom, pois nasci de novo.”