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Comunicar-se e dialogar com os diferentes é fortalecer a democracia


@COMUNICACAO 22/09/2020

Por Daniel Cerqueira


Há, por parte das pessoas que lidam com o tema da comunicação, o reconhecimento de que a polarização sociopolítica dos últimos anos tem tornado cada vez mais difícil o diálogo entre pessoas de pensamentos diferentes. Tem-se a sensação de que os grupos conversam apenas entre si e tem sido complexo ampliar a fala e a escuta para os demais. Isso afeta as relações interpessoais, mas não somente elas, pois a polarização coloca o conceito de democracia em risco.

Em 2019, a Fundação Tide Setubal lançou, em parceria com o Plano CDE, a pesquisa O Conservadorismo e as Questões Sociais. A publicação permitiu detectar a existência de pontos em comum entre o campo denominado conservador e o progressista sendo, no entanto, difícil trabalhar com essas convergências em termos de linguagem comunicativa. Fernanda Nobre, gerente de comunicação da Fundação, explica que a comunicação foi colocada na pesquisa como um dos grandes desafios para o campo progressista. “A forma como nos colocamos em defesa de causas como equidade racial e de gênero, violência ou direitos humanos não gera conexão e, muito menos, engajamento, um dos pontos centrais para a mobilização e o diálogo em torno desses temas”.

Como consequência dos resultados da pesquisa, a Fundação lançou em setembro, em parceria com o Instituto Alana e a Rede Narrativas, a publicação Comunicação de Causas: Reflexões e Provocações para Novas Narrativas. “Diante dessa realidade e do contexto cada vez mais polarizado, resolvemos dar mais um passo nessa jornada, buscando refletir quais mudanças são possíveis em nossa forma de produzir comunicação. A publicação é uma provocação para novos passos neste percurso”, conta Fernanda.

No que diz respeito aos riscos à democracia, Rafael Poço, advogado, ativista e idealizador do Despolarize, projeto voltado à melhora do diálogo entre pessoas com posicionamentos políticos diferentes, conta que a polarização como dinâmica de relacionamento tende a deixar as ideias de lado e a substituí-las por narrativas que desvalorizam a pluralidade, silenciando vozes e nuances: “A questão que se coloca é a de que presença de  pensamentos diversos é natural e saudável no campo democrático. A falta de diálogo, a transformação do outro em inimigo e a ideia de que apenas uma visão deve prevalecer não combinam com a democracia.”

 

Baixe a pesquisa Comunicação de Causas: Reflexões e Provocações para Novas Narrativas

 

Um material voltado para a reflexão

A publicação Comunicação de Causas: Reflexões e Provocações para Novas Narrativas procura abrir ao campo progressista uma possibilidade de refletir sobre suas práticas comunicativas. Ela não tem a intenção de ser guia ou manual porque respeita as diferentes visões do campo sobre as mensagens que cada organização busca e quer transmitir.

O processo de construção do material aconteceu de forma coletiva. Em 11 de fevereiro, um grupo composto por representantes da sociedade civil, do investimento social privado, de coletivos e veículos de comunicação reuniu-se para uma oficina com a Move Social, na qual foram debatidas percepções dos conservadores na pesquisa feita em 2019.

Alguns pontos abordados durante a atividade diziam respeito aos valores de ordem - ou de falta dela -, assim como a necessidade de recuperar a convivência familiar, a importância que tem a relação entre a vida cotidiana e temas e discussões para gerar maior aproximação e espaço de empatia. A mesma lógica vale para a valorização da ideia de “homem  trabalhador/batalhador”, a preocupação com o desemprego, crise e violência que geram   sentimento de  descartabilidade, entre outros pontos disponíveis com detalhes na publicação. Foram contempladas também alternativas para comunicar as causas do terceiro setor com base nessas reflexões.

Além da oficina, foram feitas entrevistas com Esther Solano, cientista social responsável pela pesquisa de 2019, e Rafael Poço. Houve, ainda, uma revisão bibliográfica sobre o tema de comunicação, em especial a progressista.

O material produzido está organizado em dois blocos centrais. O primeiro conta com panorama das características e práticas de diálogo entre diferentes campos, bem como os os desafios e as questões nesse momento de radicalização do discurso político. Já o segundo bloco propõe caminhos e possibilidades para mudar a forma de comunicar causas, ou seja, coloca o desafio de alterar as abordagens sem abrir mão de posicionamentos e valores.

 

Assista à íntegra da live de lançamento, que aconteceu em 9 de setembro


Live de lançamento expõe dificuldades, desafios e possibilidades

O lançamento da publicação aconteceu em 9 de setembro, durante live exibida no canal Enfrente, que teve apresentação panorâmica do material feita por Gabriela Brettas, da Move Social. Mediado por Fernanda Nobre, o bate-papo de mais de duas horas contou com as presenças de Cristina Fernandes de Souza, coordenadora de  comunicação do Instituto Vladimir Herzog e criadora e apresentadora do podcast Ideias Negras; Cris Bartis, sócia e diretora-executiva do B9 Company, cocriadora e apresentadora do podcast Mamilos; Rafael Poço, do Despolarize; e Marcio Black, coordenador do programa de Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setubal.

Cristina Fernandes compartilhou suas inquietações, uma vez que o Instituto Vladimir Herzog tem como premissa a ideia dos Direitos Humanos - inclusive, essa expressão é rechaçada pelo campo conservador. Ela conta que a estratégia do Instituto foi fazer encontros com lideranças dos territórios para elas poderem transmitir as questões centrais em linguagem que dialoga e não afasta: “São feitas formações sistemáticas com articuladores locais, como lideranças religiosas e comunitárias, e comunicadores dos territórios, além dos professores das escolas públicas periféricas.”

Cris Bartis chamou a atenção para o fato de que é necessário, para abrir diálogos, “respeitar a posição do outro, ainda que eu não consiga me colocar no lugar dele.” Para Rafael, o melhor antídoto para a intolerância é a convivência. Como ativista, ele conta que “a gente só consegue empatizar se conviver com as diferenças”. Márcio, por sua vez, considera que “o desejo em comum continua sendo a melhoria das comunidades e o desafio é descobrir como são criados espaços para o diálogo ser possível.”