Seminário e Matchfunding Territórios Clínicos reforçam rede de cuidado em saúde mental nas periferias
O Matchfunding Territórios Clínicos tem como objetivo apoiar trabalhos de organizações atuantes nas periferias, ao passo que o Seminário Territórios Clínicos promove debates sobre saúde mental nesses mesmos espaços; saiba mais
Uma campanha de financiamento coletivo em curso até 11 de maio e um seminário gratuito que acontecerá em formam, juntos, mais um movimento para fortalecer o acesso a cuidados com a saúde mental nas periferias de São Paulo. A iniciativa, que consiste no Matchfunding Territórios Clínicos e Seminário Territórios Clínicos, da Fundação Tide Setubal em parceria com o Instituto Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, objetiva contribuir para a continuidade do trabalho de organizações que atuam na escuta e no cuidado em territórios periféricos.
A estratégia de arrecadação, disponível na plataforma Benfeitoria, tem um mecanismo que triplica o valor de cada doação para nove iniciativas de organizações apoiadas em edições anteriores do Edital Territórios Clínicos. Em paralelo, o Seminário Territórios Clínicos acontecerá em 11 de abril, no Senac Santo Amaro. O evento encerra um ciclo de dois anos de apoio a esses grupos e abre espaço para o debate sobre psicanálise, políticas públicas e as realidades das periferias.
Matchfunding triplica doações e amplia sustentabilidade de projetos
O Edital Territórios Clínicos nasceu com o objetivo de apoiar financeira e tecnicamente organizações que já trabalham na ponta. Após dois anos de acompanhamento de dez coletivos, o acompanhamento das selecionadas no edital se encerra.
Mas, para que os projetos não percam o fôlego, surgiu a ideia de realizar um matchfunding. Ou seja, o Matchfunding Territórios Clínicos consiste em um canal por meio do qual o público pode doar diretamente para as campanhas, e cada R$ 1 é multiplicado por R$ 3.
“A cada R$ 1 arrecadado dos apoiadores, o matchfunding somará outros R$ 2”, explica Fernanda Almeida, coordenadora do Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos da Fundação Tide Setubal. “É um aporte de recurso que vem para propiciar a sustentabilidade e a continuidade dos projetos que foram financiados.”
Conheça as iniciativas
Nove das dez organizações apoiadas no edital aceitaram o desafio de mobilizar suas redes para essa nova etapa. A diversidade de atuação desses grupos mostra, então, a amplitude do que significa cuidar da saúde mental em contextos de vulnerabilidade.
O Projeto Bordando, por exemplo, oferece psicoterapia para crianças e adolescentes em acolhimento institucional. A pesquisa Ladrilhar, por sua vez, mapeia as condições do atendimento psicológico nos abrigos de São Paulo. Já o Coletivo Capim dedica-se, então, ao cuidado psicossocial indígena, e o Clínicuz Podcast trabalha na democratização de informações para a população trans.
Há ainda iniciativas que têm foco na formação de profissionais e no fortalecimento de redes. Algumas ações consistem na parceria entre APSP e GITS, que qualifica a escuta no Sistema Único de Saúde (SUS) com perspectiva interseccional. Pode-se destacar também projeto Sem Cuidado Não Há Democracia, do grupo GIPA Brasil. Essa iniciativa apoia a saúde mental de lideranças políticas que encabeçam candidaturas negras e indígenas em processos eleitorais.
Para além de tais pontos, a Associação Flor de Cacto promove espaços de acolhimento coletivo para mulheres das periferias que vivenciam traumas e lutos. Já no campo da justiça climática, o projeto PIER trabalha a resiliência de crianças em São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, área afetada por desastres socioambientais. Por fim, o Coletivo Psicanálise Periférica foca na democratização do saber psicanalítico por meio de um curso voltado para a escuta analítica territorial.
Seminário apresenta trajetórias e provoca novo olhar sobre a psicanálise
A trajetória desses coletivos e suas descobertas nesses dois anos de trabalhos será apresentada no Seminário Territórios Clínicos. O evento, cuja inscrição é gratuita, foi concebido como a conclusão pública desse ciclo. “É um encontro que celebra e propõe reflexão e discussão sobre o tema da saúde mental a partir daquilo que esses dez coletivos elaboraram”, conta Fernanda Almeida.
A programação inclui uma mesa de abertura com a apresentação das organizações, seguida por um debate intitulado O que a psicanálise tem a aprender com o território?. À tarde, quatro oficinas simultâneas abordarão temas como as relações étnico-raciais e os desafios de articulação entre políticas públicas e coletivos.
A escolha pela zona sul ser a sede do seminário também carrega um significado, inclusive ao considerar-se que a primeira edição aconteceu na zona leste. “Quando deslocamos os territórios clínicos para outros que não estão no Centro e no Centro expandido, também é um deslocamento dos corpos e das possibilidades de acesso”, afirma Fernanda. Para ela, essa é uma escolha conceitual que busca descentralizar a psicanálise e a discussão sobre saúde mental.
Assista aos diálogos da primeira edição do Seminário Territórios Clínicos, que aconteceu em 2023
Descentralização e enfrentamento ao estigma marcam legado do programa
A pergunta que nomeia o debate central do seminário foi uma provocação dos próprios coletivos. Fernanda Almeida, que trabalhou por 20 anos no serviço público, acredita que a resposta está em escutar a vida social e material das periferias.
“A psicanálise, ao longo da história, sempre disse que tem a ensinar. A inversão, colocando a psicanálise para dizer o que ela tem a aprender, é dizer e resgatar talvez o que ela tinha na sua origem: a ideia de um território”, explica. Para ela, trata-se de uma psicanálise que precisa sair dos consultórios e se enraizar nas questões contemporâneas das grandes cidades.
Esse movimento de sair do lugar-comum e disputar a narrativa sobre o fato de que o cuidado em saúde mental é um dos legados que o programa busca deixar. “O Territórios Clínicos, por ser um programa que não prevê apenas o atendimento, mas a incidência nesse campo. Desse modo, pode trazer com formação, publicações e financiamento de pesquisas na área uma possibilidade de disputar essa narrativa. E, portanto, incidir de maneira direta no desmonte dos estigmas relacionados ao tema.”
A lógica que move tanto o Seminário e o Matchfunding Territórios Clínicos é a mesma: a saúde mental não se resolve apenas
no atendimento individual. “A saúde mental é necessariamente social, política e territorial”, resume a coordenadora do Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos.
O Matchfunding Territórios Clínicos, nesse sentido, não é apenas uma ferramenta de arrecadação. Trata-se de uma forma de engajar a sociedade na construção de uma rede de apoio mais robusta. É, finalmente, a chance de, com um gesto que se multiplica, garantir que projetos que já demonstraram sua potência nos territórios possam seguir existindo e crescendo.
Sobre o Seminário e o Matchfunding Territórios Clínicos
O Seminário Territórios Clínicos acontecerá em 11 de abril, das 8h às 17h30, no Centro de Convenções Senac Santo Amaro (avenida Engenheiro Eusébio Stevaux, 823, Jurubatuba, São Paulo). Confira a programação e inscreva-se na página sobre o evento. Vale destacar que somente será possível inscrever-se para uma das oficinas do período da tarde.
Por fim, confira e apoie as nove iniciativas disponíveis no Matchfunding Territórios Clínicos na página da iniciativa na plataforma Benfeitoria. As campanhas seguem no ar até 11 de maio.
