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Terceira edição do Edital Territórios Clínicos investe R$ 2 milhões em saúde mental nas periferias de São Paulo

Fortalecer iniciativas para democratizar e descentralizar a produção de conhecimento e o atendimento psicológico e/ou psicanalítico. Este é o objetivo da terceira edição do edital Territórios Clínicos, iniciativa da Fundação Tide Setubal no segmento de saúde mental.

Desse modo, o programa investirá R$ 2 milhões, com aporte de R$ 200 mil para cada uma das dez iniciativas escolhidas, distribuídos ao longo de três anos. Além do financiamento, as organizações selecionadas receberão acompanhamento técnico durante, com encontros individuais e coletivos. Elas também participarão de um seminário e de uma campanha de matchfunding no último ano da parceria.

O edital parte do reconhecimento de que a saúde mental é um direito e o sofrimento psíquico tem raízes sociais profundas. Nesse sentido, os dados são alarmantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas convivem com transtornos mentais no mundo.

No Brasil, as licenças médicas por ansiedade e depressão cresceram 68% em 2024, alcançando quase meio milhão de afastamentos. Já em São Paulo, o número de atendimentos com psicólogos aumentou 40% entre 2022 e 2024, chegando a 2,4 milhões.

Esses números não afetam toda a população da mesma maneira. A Carta Manifesto por uma Saúde Mental Antirracista, do AMMA Psique e Negritude, destaca que o racismo é determinante social do sofrimento psíquico no Brasil, atingindo de forma mais intensa a população negra, que em sua maioria reside em territórios periféricos. A precarização do trabalho, o desemprego, a exposição à violência e as barreiras de acesso a serviços de saúde geram um adoecimento mental, estrutural e contínuo nessas regiões.

Um programa em expansão

Criado em 2021, o edital Territórios Clínicos já apoiou, nas duas primeiras edições, 17 coletivos em diferentes regiões do Estado de São Paulo. Nas duas primeiras edições, o programa destinou R$ 2,2 milhões ao atendimento psicológico e psicanalítico e à formação de profissionais. O livro Territórios Clínicos, resultado da primeira edição, ficou entre os semifinalistas do 2° Prêmio Jabuti Acadêmico, na área de psicologia e psicanálise.

Fernanda Almeida, coordenadora do Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos da Fundação Tide Setubal, explica que o Territórios Clínicos se consolidou como mais que um programa.

“[O edital Territórios Clínicos] hoje é uma marca e é um modo de fazer fomento no campo da saúde mental. Ele colabora financeiramente, mas tem também uma preocupação ética e de concepção das entidades a partir de um referencial antirracista, periférico, consubstanciado com os valores da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial. Além disso, as organizações participantes produzem reflexão e pensamento, e colaboram para a abertura de pensamento sobre o que é saúde mental em territórios periféricos.”

Marcas da terceira edição do edital Territórios Clínicos

O objetivo da terceira edição do edital Territórios Clínicos é apoiar e fortalecer organizações que promovam a circulação e ampliação de práticas no campo da saúde mental, sobretudo psicanalítico, contribuindo para democratizar e descentralizar a produção de conhecimento e o atendimento no Estado de São Paulo. As inscrições estarão abertas até  31 de agosto de 2026 e deverão ser feitas exclusivamente por meio deste formulário online.

Podem participar organizações em suas diversas denominações, coletivos e grupos, com ou sem CNPJ, que atuem no Estado de São Paulo tenham ao menos um profissional da psicologia, da psicanálise ou da psiquiatria. Valoriza-se, então, a presença de equipes multiprofissionais e diversa na composição das equipes. Essa lógica diz respeito também à participação de pessoas negras, indígenas, de origem periférica, LGBTQIAPN+, imigrantes e pessoas com deficiência.

Fernanda Almeida ainda destaca a importância de se investir no fortalecimento institucional das organizações. “Temos uma enorme preocupação que esses projetos exitosos continuem e possam ganhar sustentabilidade.”

Acompanhamento e construção de rede

Além do apoio financeiro, as organizações selecionadas terão acompanhamento formativo da Fundação Tide Setubal. No primeiro e segundo anos, serão realizadas duas reuniões individuais virtuais com cada organização e quatro encontros presenciais coletivos com todas as dez organizações apoiadas.

No terceiro ano, as organizações participarão do desenvolvimento de um seminário para compartilhamento de resultados e de uma campanha de matchfunding. Essa etapa contará com apoio de assessoria técnica contratada pela Fundação.

A construção de rede entre os coletivos é um dos pilares do programa. “No Territórios Clínicos 2 ficou evidente a importância da constituição da rede, do trabalho em rede e do trabalho colaborativo. Esses encontros proporcionam a troca entre os coletivos e a possibilidade de enriquecimento do trabalho que eles desenvolvem”, destaca a coordenadora do Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos.

O projeto não se encerra em si. “Cada edição acumula, logo, não começa do zero. Agora não há sete ou dez coletivos: temos 17 coletivas apoiadas. Virão mais dez e seremos 27 coletivas trabalhando, de alguma forma, juntas.”

Saúde mental como direito

A abordagem da terceira edição do edital Territórios Clínicos busca ir além da resposta imediata à demanda, possibilitando a produção de dados e incidências. Almeida pondera: “Uma parcela significativa da população tem sido impactada pela ansiedade e pela depressão. Quem vai se perguntar por quê? O Territórios Clínicos pode ser uma oportunidade de nos perguntarmos por que as pessoas estão adoecendo.”

Essa perspectiva considera que a saúde mental não se reduz ao bem-estar ou à ausência de conflito. “A saúde mental não é não sofrer ou não se entristecer. Trata-se de um direito inclusive de poder se entristecer e entrar em contato com afetos que nem sempre são os melhores”, reflete. “No mundo em que estamos vivendo, é como se ter saúde mental fosse um sinônimo só de eliminação de todo e qualquer experiência conflituosa na vida. E não é isso.”

A expectativa para a terceira edição é aprofundar o que significa produzir saúde mental em territórios periféricos. “Para sair dessa ideia de saúde mental genérica e para podermos construir uma especificidade da saúde mental em territórios periféricos, é necessário produzir conhecimento sobre os modos de vida e os modos de enfrentar e resistir”, conclui.

As inscrições para a terceira edição do Edital Territórios Clínicos vão até 31 de agosto de 2026. Por fim, o regulamento completo está disponível no site da Fundação Tide Setubal.

Por Daniel Cerqueira Ciasca 

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