‘Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo’ apresenta iniciativas em gestões municipais e estaduais
Desenvolvido pela Fundação Tide Setubal, o ‘Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo’ visa criar um marco de referência na adoção de políticas de ações afirmativas

Quais são os desafios para implementar ações de promoção da igualdade racial na gestão pública? E quais exemplos podem funcionar como inspiração para colocar em prática tais iniciativas e torná-las elementos estruturantes da organização de autarquias diversas do Estado? Esse é o ponto de partida do Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo.
Desenvolvida pela Fundação Tide Setubal, a publicação consiste em desdobramento da pesquisa Mapeamento de Ações de Combate ao Racismo e Promoção da Igualdade pela Gestão Pública Brasileira, relatório que visa criar um marco de referência para subsidiar profissionais na gestão pública na adoção de políticas de ações afirmativas, a fim de evitar os riscos de reprodução de desigualdades na implementação das políticas públicas.
A premissa do novo guia é aprofundar em aprendizados do relatório lançado em 2024. É o que explica Viviane Soranso, coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso da Fundação Tide Setubal. “Objetivamos fornecer subsídios e compartilhar evidências sobre experiências bem-sucedidas e resultados que destacam o êxito de políticas públicas e iniciativas que tenham no horizonte o combate ao racismo.”
Sobre as ações de promoção da igualdade racial
O Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo disponibiliza exemplos de iniciativas consolidadas no âmbito de gestões municipais e estaduais brasileiras. Desse modo, o material oferece passo a passo sobre o que fazer para o desenvolvimento de ações semelhantes.
Segundo Delton Aparecido Felipe, doutor em Educação, coordenador da Área de Políticas e Ações Afirmativas da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN) e uma das pessoas coordenadoras da pesquisa, os exemplos presentes na publicação demonstram que o combate ao racismo dentro de estruturas governamentais passa a ser uma política efetiva essas mesmas esferas darem peso jurídico a ações com esse teor.
“Casos de sucesso em diversas capitais brasileiras revelam que, quando o município ou o estado traduz a demanda social em decretos, leis orçamentárias e planos de longo prazo, ele cria uma estrutura blindada que protege a política pública. Isso garante que a promoção da igualdade racial não dependa da boa vontade de um governante específico, mas passe a funcionar de forma obrigatória e contínua dentro da máquina pública”, explica.
Mecanismos para garantir a equidade racial na prática
Outro destaque sobre o Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo passa por mostrar, por meio dos exemplos mapeados em autarquias e esferas diversas do contexto governamental, que não existe receita de bolo ou padronizada para o desenvolvimento de projetos com esse teor.
Além disso, o material evidencia que o processo para torná-las bem-sucedidas passa pelo diálogo entre diversos agentes. Consequentemente, a adaptação dessas mesmas iniciativas às urgências demográficas, sociais e culturais de sua própria região é uma medida obrigatória nesse contexto. Ainda, projetos com foco no combate ao racismo precisam ter abordagem multidisciplinar. Afinal, precisa-se de articulação e do trabalho em conjunto de todas as áreas de planejamento e execução do Estado para que sejam efetivos.
Outros ensinamentos que o guia coloca à disposição de quem lê-lo compreendem o fato de que é necessário ver a complexidade nos processos de negociação e de disputas políticas como parte de processo de amadurecimento democrático em vez de um obstáculo. Nesse sentido, a publicação mostra também que disputas e tensionamentos políticos precisam ser consolidados e protegidos por meio de mecanismos jurídicos formais — decretos, portarias e Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), por exemplo.
“Ao formalizar e ‘despessoalizar’ essas ações, os diversos segmentos do poder público aprendem que a negociação feita hoje se transforma na política de Estado protegida de amanhã, garantindo que o caráter transversal e regionalizado da ação sobreviva às mudanças de gestão e se firme como um compromisso coletivo e permanente”, reforça Delton.
Intencionalidade e estrutura
O Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo traz à tona também o papel do financiamento para ações com esse teor. Nesse contexto, é possível estabelecer uma relação de causa e efeito: os exemplos que compõem a publicação evidenciam que o êxito de políticas públicas para combate ao racismo depende de verbas específicas e dotações orçamentárias carimbadas.
O monitoramento e a fiscalização contínuos são fundamentais, então, para medir a eficiência da ação e corrigir rumos na sua gestão. Essa perspectiva passa pela criação de, por exemplo, comissões formais, indicadores de acompanhamento de cotas e canais de ouvidoria para auditar o cumprimento de tais metas de diversidade. “A engrenagem de fiscalização e controle interno gera dados que comprovam o sucesso das iniciativas, fortalece o controle social. Ela garante também que o compromisso antirracista não seja apenas um discurso, mas sim uma política de Estado viva, transparente e permanentemente cobrada por toda a sociedade”, completa o coordenador da produção do guia.
Por fim, ao falar sobre a garantia de arcabouço para assegurar a viabilidade e o desenvolvimento de ações com foco na promoção da equidade racial, Viviane Soranso completa ao associar a intencionalidade ao papel que o Estado pode exercer para torná-las perenes em suas estruturas. E esse ponto tem, enfim, relação direta com a garantia de verba para ações com esse teor.
“As evidências identificadas nessas ações mostram que é fundamental haver intencionalidade em caráter institucional para torná-las como aspectos intrínsecos às estruturas de autarquias. Isso vale também para fazer com que a adoção dessas mesmas práticas se torne uma medida cultural e estrutural dentro do poder público, ao evitar-se a lógica segundo a qual a promoção da equidade racial esteja vinculada a profissionais específicas e específicos nessas mesmas repartições”, finaliza.
Reconhecimento e homenagem
A pesquisa que compõe o guia teve coordenação de Delton Aparecido Felipe, entrevistado nesta reportagem, e de Quéren Samai Moraes Santana. Quéren, doutoranda e mestre em Direito e Desenvolvimento pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito SP) e coordenou também o desenvolvimento da publicação Mapeamento de Ações de Combate ao Racismo e Promoção da Igualdade pela Gestão Pública Brasileira, faleceu em abril de 2026.
Reconhecer a importância de ambos os materiais é valorizar a contribuição de Quéren na luta pela construção de uma sociedade pautada pela promoção da equidade racial. Que a sua trajetória e obra nos inspirem a dar andamento ao seu trabalho e propósito.
Para ler e conferir exemplos
Finalmente, baixe no nosso site o Guia Prático para Implementação de Ações de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo.
Texto: Amauri Eugênio Jr.
