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O direito ao sobrenome próprio, por Heloísa Teixeira

“Quando eu me lembrei que não conhecia a minha mãe e não tinha histórias pra contar dela, eu falei: ‘[isto] está errado. Parou, vamos repensar tudo.’ Eu já tinha certo incômodo com o sobrenome Buarque de Holanda, pois não era meu – era do marido.”

 

Nos últimos anos de sua vida, Heloísa Teixeira (1939-2025) abriu mão do sobrenome que carregara por anos – Buarque de Holanda – para retornar ao de sua família.

 

Esse foi um momento emblemático de sua entrevista no podcast Escute as Mais Velhas com Maria Alice Setubal, presidente do Conselho Curador da Fundação Tide Setubal, e Sueli Carneiro, filósofa e ativista, coordenadora executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra.

 

Durante esse processo de mudança e de retomada de suas raízes, ela escolheu seguir por um caminho análogo ao de uma reparação histórica. E, nesse sentido, o arcabouço que construiu na luta pela equidade de gêneros a motivou a recorrer às suas raízes maternas: a recorrer ao sobrenome de sua mãe – Teixeira. “Essas mulheres [referências do feminismo] me levaram a dizer: ‘Não! Terei o nome de minha mãe e a colocarei para falar. Aí, eu mudei.”

 

Do nome próprio ao saber próprio

Essa postura foi reflexo de sua trajetória na luta pela valorização feminina, por meio do feminismo, inclusive no ambiente acadêmico. Uma passagem emblemática para Heloísa Teixeira foi poder acompanhar – e participar – do surgimento de lutas feministas em momentos como o período em que fez pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Columbia (EUA).

 

Um de tais aspectos passou, então, pela demanda para as referências bibliográficas contemplarem mais autoras em vez de abrangerem exclusivamente homens. “Após a questão da bibliografia, veio também a questão do departamento: eu queria que fosse uma área de saber dentro da universidade. E acabaram criando os departamentos feministas, de relações de gênero etc.”

 

No entanto, em diálogo com a explicação de Heloísa Teixeira, a resistência no ambiente acadêmico com demandas referentes à equidade de gêneros ainda é presente. “Não existe essa área de conhecimento [algo na linha de um departamento de estudos feministas]. É algo muito incipiente e a universidade não ouve. Então, eu fiquei militando na universidade.”

Sobre mudar paradigmas

Ainda que Heloísa Teixeira não esteja mais fisicamente por aqui, o seu legado continua a influenciar de modo incontornável a luta feminista. E, ao considerar-se que ela é imortal, essa lógica vale também para a Academia Brasileira de Letras, ao ter ocupado a cadeira n° 30 em 2023.

 

Desse modo, tal abordagem a motivou a questionar o status quo da ABL, na qual a presença masculina é a maioria incontestável. “Eles são personagens notáveis da cultura brasileira e, por isso, estão ali. Eles são notáveis, enquanto as mulheres entram ali e não ficam notáveis”, relatou à época.

 

Esse mesmo questionamento vale também, enfim, para contestar a perspectiva socialmente etarista. Para Heloísa Teixeira, o acúmulo de saberes durante a vida converte-se em um capital que pode ser aplicado, segundo o termo usado por ela durante a entrevista, na “velhice”.

 

Isso representava, para ela, uma mudança no modo como a sociedade lida com o envelhecimento: “acho que isso é o ser velho mais novo que estamos assistindo”, comentou. E isso reflete nos aprendizados que as próximas gerações poderão – e deverão – ter com quem lutou antes delas.

 

“Antes, os jovens não nos deixavam falar. Agora os jovens terão de escutar também, pois há muita coisa que não foi dita para eles e que precisam saber. Vejo, então, que caiu a ficha para os [mais] velhos caíram e eles começam a ativar esse capital em vez de deixá-lo empoeirado”, finalizou.

Para dar play e maratonar

Ouça a íntegra do episódio com Heloísa Teixeira no feed do podcast Escute as Mais Velhas. Por fim, maratone também os outros episódios que compõem a primeira temporada do programa.

 

Texto: Amauri Eugênio Jr.

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