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Escreviver a nossa história e construir o nosso futuro, por Conceição Evaristo

Conceição Evaristo é um dos exemplos mais emblemáticos quando se fala em ocupar espaços de decisão em âmbitos material e simbólico. Seja por meio de sua aclamada obra literária e de sua influência em diversos segmentos socioculturais e acadêmicos, o seu legado reflete-se na construção de um sonho coletivo:

 

Falo que o interessante não é ser a primeira: o interessante é abrir caminhos e é criar perspectiva. 

 

Esse é um dos pontos que norteiam a sua entrevista no no podcast Escute as Mais Velhas. O programa, que tem como apresentadoras Maria Alice Setubal, presidente do Conselho Curador da Fundação Tide Setubal, e Sueli Carneiro, filósofa e ativista, coordenadora executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra, objetiva preencher lacunas da história e celebrar a trajetória de mulheres extraordinárias.

 

Nesse sentido, o exemplo de Conceição Evaristo transcende a seara literária e mostra o seu impacto em diversos segmentos da sociedade. Um dos casos incontornáveis nesse caso é a escrevivência, conceito criado pela própria escritora que consiste na combinação dos termos “escrever”, “viver” e “se ver”.

 

Segundo explicação na Plataforma Ancestralidades, projeto da Fundação Tide Setubal e do Itaú Cultural voltado à valorização dos saberes afro-brasileiros, o conceito de escrevivência “representa uma concepção derivada de uma epistemologia negra, que, a partir de uma perspectiva multifocal, consegue examinar e analisar os contornos das experiências da população negra brasileira.” Desse modo, tal conceito tem relação intrínseca ao corpo negro, em particular o de mulheres negras.

Sobre escreviver o presente e o futuro

Para além da esfera literária, o conceito de escrevivência tem reflexos em outras áreas, como o turismo e a esfera judicial. Essa perspectiva foi um dos vetores para a criação da Casa Escrevivência, centro cultural que, entre outras coisas, abriga o seu acervo bibliográfico e artístico:

 

Apesar de ‘a gente combinarmos de não morrer’, que não sou nada boba, comecei a pensar: ‘Preciso deixar esse material organizadinho. Aí foram surgindo também vários estudos sobre escrevivência. Tenho um acervo imenso de livros que foram construídos ao longo do tempo. Primeiro, pensei em uma biblioteca comunitária. Aí, a gente pensou: ‘então vamos fazer uma casa.’ Isso porque já pensei que uma casa vai abrigar todo o meu acervo e [ser] polo, inclusive, de estudos sobre escrevivência.

 

Em paralelo, a escrevivência reflete-se na busca pelo protagonismo por parte de pessoas negras em espaços de poder e de decisão. Um episódio emblemático nesse sentido foi a candidatura de Conceição Evaristo à cadeira n° 7 da Academia Brasileira de Letras.

 

Apesar de não ter sido eleita, o processo evidenciou a desigualdade racial e de gênero na ABL. Apenas em 2025 a organização selecionou a primeira mulher negra em sua história, quando a escritora Ana Maria Gonçalves tomou posse da cadeira n° 33.

 

A sub-representação de pessoas negras em espaços decisórios, pontualmente na esfera literária, leva Conceição Evaristo à seguinte pensata:

 

O sujeito negro, a cultura negra e o nosso modo de sermos negros estão muito presentes na literatura brasileira. Mas nunca segundo a nossa autoria, o nosso arranjo estético e o nosso modo de compor literatura.

 

Por fim, a escritora reforça que talvez o discurso mais ausente para a identidade brasileira seja o literário. Logo, estar na ABL “é estar no lugar de uma identidade nacional que nós criamos e somos sujeitos ativos.”

 

Para dar play e maratonar

Ouça a íntegra do episódio com Conceição Evaristo no feed do podcast Escute as Mais Velhas. Por fim, maratone também os outros episódios que compõem a primeira temporada do programa.

 

Texto: Amauri Eugênio Jr.

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