Mais do que orgulho, inclusão e oportunidade: por que incluir a população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho importa
Os dados segmentados de desemprego e informalidade evidenciam a importância de apoiar o desenvolvimento e o ingresso da população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho

Desenvolver ações que tenham objetivo específico de incluir a população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho importa. Essa abordagem, que tem papel preponderante para promover a inclusão deste segmento social no mercado de trabalho, inclusive em espaços de poder e de decisão, torna-se ainda mais evidente quando dados segmentados nesse contexto vêm à tona.
Ainda que dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrem que a taxa de desocupação – leia-se desemprego – esteja em 5,6%, o quadro é bem diferente quando se trata da população LGBTQIAP+.
Nesse sentido, um estudo do Banco Mundial evidencia que esse indicador é de 15,2% para essa mesma população. Ainda, outro dado preocupante passa pela população que trabalha na informalidade. Para se ter uma ideia, enquanto esse percentual é de 40% para a população geral, o indicador chega a 46% para a população LGBTQIAP+.
Para além da presença reduzida da população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho, deve-se considerar também os impactos econômicos resultantes desse panorama. Segundo o mesmo levantamento, estima-se que a exclusão desse mesmo segmento resulte em perda econômica anual de R$ 94,4 bilhões. Ou seja, o país deixa de gerar o equivalente a quase 1% de seu Produto Interno Bruto (PIB).
Por que incluir a população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho importa?
Diante do quadro exposto na primeira seção deste texto, torna-se evidente a urgência para a criação de mais projetos com foco em incluir a população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho.
Um aspecto mandatório passa pela intencionalidade de incluir populações de grupos minorizados. Em entrevista concedida para a Fundação Tide Setubal, Amanda Abreu, cofundadora da consultoria Indique, destacou o processo pelo qual essas populações passaram para conseguir êxito nesse contexto, assim como a importância de revisar tais aspectos.
“As empresas precisam fazer uma revisão em relação a isso. Durante anos, pessoas pretas, LGBTQIAPN+, PCDs ou indígenas se modificaram para entrar no mercado de trabalho”, pondera. “Agora é a hora de o mercado de trabalho entender um pouquinho que ele precisa se modificar para acolher essas pessoas. Senão, ele ficará muito atrás do que acontece no mundo.”
Assim sendo, a intencionalidade para desenvolver ações com foco em incluir a população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho é mandatória. Essa dimensão contempla também o trabalho que organizações do campo do investimento social privado (ISP) realizam no enfrentamento das desigualdades.
Segundo dados do Censo Gife 2024-2025, 19% das organizações atuam diretamente com projetos que têm a população LGBTQIAP+ como foco. Em paralelo, 36% dos mesmos institutos e empresas afirmaram desenvolver iniciativas transversais referentes a esse mesmo grupo social.
Jovanna Cardoso, fundadora do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros Contra o Racismo e a Transfobia (Fonatrans), destacou a urgência de haver projetos com foco em assistência e empregabilidade para a população LGBTQIAP+. Nesse sentido, tal abordagem contempla, em particular, a população trans.
“Não adianta dar a educação e depois não disponibilizar assistência na busca por uma vaga, em um projeto de empregabilidade e na possibilidade da pessoa se reciclar e, depois, tentar auxiliar na questão da empregabilidade”, reforça.
Reflexos do apoio na prática
A fala acima de Jovanna Cardoso conecta-se com a de Lupita Amorim, cientista social e analista de Projetos Sociais da Fundação Amaggi. As duas foram apoiadas na primeira edição do Edital Traços – à época Edital Caminhos -, ação da Plataforma Alas que objetiva fortalecer a trajetória profissional, educacional e pessoal de pessoas negras.
Lupita destacou, em live do Canal Enfrente sobre dimensões diversas no apoio ao ingresso da população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho, em particular quanto a pessoas trans, a importância de ações com esse teor. “São muitos enfrentamentos e critérios que ainda não estão confortáveis para nós nos âmbitos de saúde, mercado de trabalho, educação e tantos outros”, descreve.
Por fim, Lupita falou sobre o modo como o fomento por meio do Edital Traços a permitiu colocar em prática projetos como o aprendizado de um novo idioma – no caso, a língua inglesa. Projetos com esse teor permitem, segundo a cientista social. “Isso faz com que a gente tenha outras oportunidades de trabalho. Consegui ter uma consultoria em relação às escritas do meu TCC [trabalho de conclusão de curso na graduação] e de outras produções acadêmicas”, finaliza.
Texto: Amauri Eugênio Jr.
