Quais marcadores nortearam a realização do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição?
O Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição contou oficinas com que colocaram em pauta o debate e práticas sobre democratização da saúde mental
Aprofundar temas centrais que colocam em diálogo as clínicas públicas com teoria psicanalítica, territórios periféricos e políticas públicas de saúde mental. Esse foi o objetivo do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição.
Realizado em 11 de abril, no Centro de Convenções Senac Santo Amaro, pela Fundação Tide Setubal e pela Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, o evento colocou em pauta, para além de mesas de discussão, atividades segmentadas e práticas para aprofundamento em reflexões com esse teor.
Essa abordagem refletiu, então, o desenvolvimento das quatro atividades que compuseram a segunda parte da programação do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição:
- Oficina 1: Psicanálise nos territórios marginais: práxis e formação diante do desmonte do legado colonial. A atividade contou com mediação de João Sales (Psicanálise Periférica), Raul Ramos Terra (Clinicuz) e Zeca Carú de Paula;
- Oficina 2: Desafios e possibilidades de articulação intersetorial entre as políticas públicas e os coletivos. Conduziram a dinâmica Clarice Paulon (APSP & GITS), Kate Delfini (Instituto Fazendo História), Liziane Guedes (NEIDE/Ladrilhar) e Priscila Santos;
- Oficina 3: Caminhos para escuta e práticas de cuidado nas relações étnico-raciais, com Cândida Lucas (GIPA), Itaynara Tuxá (Coletivo Capim) e Taily Terena;
- Oficina 4: Territórios: dispositivos clínicos, saberes e transmissão. A condução da atividade ficou sob responsabilidade de Andrea Arruda Paula (Flor de Cacto), Gabriel Basílio (Psi Cultural Vozes de Carolinas Vivas), Maria Cristina Araújo de Marchi Gherini (PIER) e Géssica de Paula.

Oficina 4: Territórios: dispositivos clínicos, saberes e transmissão (Foto: DiCampana Foto Coletivo)
Reflexões e provocações
Na sequência do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição, a mesa Caminhos para escuta no território apresentou reflexões sobre as oficinas.
Durante o diálogo, João Sales destacou que, ao se considerar quais fatores influenciam a prática psicanalítica em territórios periféricos, a atividade clínica pode ter como objetivo a transformação ética em relação às pessoas atendidas.
“Não podemos romantizar e essencializar as pessoas que chegam à nossa clínica, principalmente as periféricas. Não podemos dizer exatamente, antes de escutar, o que uma pessoa periférica sofre”, pondera. Nesse sentido, corre-se o risco de colocar em prática outro tipo de violência ou de alienação quanto às particularidades territoriais e pessoais. “Os territórios periféricos são estereotipados. Estereotipam-se corpos negros, mulheres negras, homens negros e pessoas dissidentes.”
Já Cândida Lucas aborda, a partir da dinâmica na oficina 3 do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição, sobre a dimensão coletiva da prática psicanalítica. Essa perspectiva envolve, então, a importância de sustentar práticas de cuidado que reconheçam o sofrimento como produção social e histórica. E, desse modo, é necessário apostar-se na construção de redes, territórios e saberes plurais.
“Nesse cenário, o sofrimento não se apresenta como um fenômeno individual, mas como expressão de uma sociedade racista que produz e mantém desigualdades. A clínica é, portanto, convocada a operar para além de seus referenciais tradicionais, incorporando dimensões sociais, históricas e políticas como constitutivas da experiência subjetiva”, explica.
+ O que constitui os territórios clínicos e subjetivos?
Qual é a relação entre territórios e saúde mental?
As reflexões que emergiram no Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição, para além dos diálogos que compuseram o evento, passaram pela dinâmica entre periferias e psicanálise.
Para Zeca Carú de Paula, participante da mesa O que a psicanálise tem a ver com o território?, um conceito que vem à tona é “a capacidade de criar mesmo nas condições mais, ou aparentemente, impossíveis.” Dentro dessa lógica, Carú de Paula considera que o território compõe a experiência de um corpo. Logo, esse mesmo território envolve o repertório simbólico e a própria memória. “Mas [contempla] também a memória compartilhada da qual compomos. Não vivemos, tampouco nascemos, de modo isolado ou descolado de um contexto, de uma cultura e de uma terra.”
Já Jéssica de Paula, que participou da mesma mesa, considera a dinâmica da saúde mental nas periferias como uma luta em virtude do contexto territorial e do processo para se garantir cuidado de qualidade quando se fala em saúde mental. “Quando falo de luta, é sobre dignidade e respeito”, comenta. “Mas acho que o território em si tem buscado ressignificar esses cuidados, seja pela arte ou por movimentos e coletivos. Território e saúde mental estão no sentido de ressignificação.”
Por fim, Joana Waldorf, psicanalista do Clínicuz e participante da mesa Caminhos para escuta no território, considera fundamental que a pessoa profissional em psicanálise tenha em mente as particularidades e aspectos que constituem o território onde atuará. “Quando se pensa em território, ao entender também corpo como território, esse corpo constitui ali as suas fronteiras e a relação entre corpo e território.”
