Os territórios clínicos, quando se fala em democratização no acesso a cuidados com a saúde mental, são múltiplos e podem ter diversos pontos de partida e particularidades. A dimensão plural sobre esse tema norteou as discussões que aconteceram durante o Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição.
Realizado em 11 de abril, no Centro de Convenções Senac Santo Amaro, pela Fundação Tide Setubal e pela Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, o evento apresentou a conclusão do trabalho realizado com – e por – as dez coletivas apoiadas na segunda edição do edital Territórios Clínicos.
A plenária de abertura contou com participações das dez coletivas que receberam apoios por dois anos por meio do mesmo edital:

Tide Setubal (Foto: Di Campana Foto Coletivo)
Durante a abertura do evento, Tide Setubal, conselheira-executiva do Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos e conselheira da Fundação, comentou um dos objetivos da iniciativa e o modo como se conecta com o trabalho dos coletivos atuantes em territórios marcados pela pluralidade.
“A nossa aposta é de que apoiar coletivos e organizações que trabalham com saúde mental nas periferias, fomentando reflexões teóricas e práticas clínicas, assim como aulas e formações, é uma maneira de buscar democratizar o acesso à saúde mental. Nesse sentido, parece-nos muito importante que a produção e a disseminação de conhecimento priorizem epistemologias brasileiras e anticoloniais”, pondera.
O título acima foi o mesmo que nomeou a primeira mesa do Seminário Territórios Clínicos. A atividade, que foi mediada por Emiliano de Camargo David, psicólogo, doutor e mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), teve participação de:
Priscilla Santos de Souza destacou, em sua participação, aspectos fundamentais quando se fala nos territórios clínicos. Nesse sentido, deve-se considerar especificidades territoriais, como condições demográficas e socioeconômicas das respectivas populações, assim como a infraestrutura local, têm papel central nesse caso.
“Ao ocupar a partir de uma lógica de organização da materialidade que se estrutura o território, onde estão as casas, os consultórios clínicos e as instituições que atendem? Como são a UBS [Unidade Básica de Saúde] ou o CAPS [Centros de Atenção Psicossocial] em determinados territórios? Qual o tipo de profissional que atende falando de considerações relacionadas à sexualidade, racialidade e às condições materiais das pessoas que atende?”, pondera Priscilla.
Desse modo, a psicanalista considera que “isso tudo é territorializado. Ocupar e pensar essa relação é pensar o desenvolvimento das políticas públicas de saúde mental e das ferramentas clínicas específicas.”

Mesa ‘O que a psicanálise tem a ver com o território?’ (Foto: DiCampana Foto Coletivo)
Durante o debate sobre as dimensões que compõem os territórios clínicos, Géssica de Paula falou do surgimento do projeto Saúde Mental nas Periferias. Ela destacou que a origem se relaciona à falta de acesso adequado a cuidados em saúde mental nas periferias. Desse modo, o objetivo foi desenvolver ações que tivessem como marcadores que passassem pela intersecção de território, raça, gênero e condição socioeconômica.
“A escuta tem potência, pode libertar quem clama por socorro e ajudar alguém a compreender os monstros que gritam dentro da própria mente”, explicou. Assim, outro aspecto central para o projeto consistiu em considerar que a psicanálise ainda está afastada de territórios que sofrem de modo severo com o adoecimento mental.
“Quando não conseguimos encontrar pares dispostos a se dedicar profundamente ao cuidado de quem mais precisa, somos obrigados a encarar uma verdade incômoda: existe um fator estrutural produzindo sofrimento psíquico neste país. O Brasil foi construído derramando o sangue de quem sempre foi excluído e continua derramando.”
Nesse contexto, Taily Terena trouxe à tona a reflexão sobre a importância de se priorizar abordagens pautadas pela coletividade em oposição ao isolamento. “Talvez isso seja um exercício um pouco maior na cidade e que precisemos fazer: no caso, saber onde a pessoa pertenço nesse mundo”, ponderou.
Essa percepção permitiu, desse modo, que se estabelecesse relação entre saúde mental, território e cosmovisão indígena. “Quando se fala em saúde mental, para nós, povos indígenas, há algo muito novo. Estamos tentando entender essa relação que ficou doente a partir da colonização, que nos negou muitos direitos e a nossa identidade. O processo de retomada que estamos fazendo, ao podermos nos reconectar com o nosso território e nossas práticas culturais e a nossa espiritualidade. Falo isso na cosmologia do meu povo, mas serve também para todos nós, indígenas ou não.”
Assim sendo, a fala de Géssica de Paula conectou-se com a reflexão que Zeca Carú de Paula trouxe à tona sobre a dimensão entre corpo e território. “A ideia que se tem a respeito das performances de gênero é sobre território”, ponderou Zeca. “De algum modo, dizer o que é homem e o que é mulher é sobre falar de fronteira, limite e sobre o que pode e o que não pode acontecer nesse território.”
Para além do debate sobre cisgeneridade e transgeneridade, o doutorando em Psicologia Clínica destacou que sua abordagem iria para além da dimensão de identidade.
“Estou me referindo a compor um espaço que pensa não apenas a categoria, mas a prática psibrasileira, a partir de outros modos de afetação e de produção de saberes. É isso o que me interessa aqui ao dizer disso. Não poderia dizer da dimensão identitária, da representatividade e da representação. Isso também é possível e tem seus valores, mas não é a isso ao que me refiro para marcar a importância política desse plenário”, destacou.
Por fim, confira a reportagem sobre a segunda parte do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição.
Texto: Amauri Eugênio Jr.
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