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O que constitui os territórios clínicos e subjetivos?

A segunda edição do Seminário Territórios Clínicos retrata dimensões diversas no debate sobre democratização do acesso aos cuidados com a saúde mental nas periferias

22 de abril de 2026
Representantes em um palco durante a abertura do Seminário Territórios Clínicos. Há, ao fundo, uma tela com a identidade visual do evento. Representantes em um palco durante a abertura do Seminário Territórios Clínicos. Há, ao fundo, uma tela com a identidade visual do evento.
Foto: Di Campana Foto Coletivo

Os territórios clínicos, quando se fala em democratização no acesso a cuidados com a saúde mental, são múltiplos e podem ter diversos pontos de partida e particularidades. A dimensão plural sobre esse tema norteou as discussões que aconteceram durante o Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição.

Realizado em 11 de abril, no Centro de Convenções Senac Santo Amaro, pela Fundação Tide Setubal e pela Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, o evento apresentou a conclusão do trabalho realizado com – e por – as dez coletivas apoiadas na segunda edição do edital Territórios Clínicos.

A plenária de abertura contou com participações das dez coletivas que receberam apoios por dois anos por meio do mesmo edital:

  • APSP & GITS-USP;
  • Clínicuz;
  • Coletivo Capim;
  • Coletivo Psicanálise Periférica;
  • Flor de Cacto;
  • Grupo de Iniciativa Psi Antirracista (GIPA);
  • Instituto Fazendo História;
  • NEIDE/Ladrilhar;
  • PIER (Psicologia em Emergências e Desastres);
  • Psi Cultural Vozes de Carolinas Vivas.
Imagem de Tide Setubal. Ela é uma mulher branca, com cabelos loiros e fala ao microfone. Ela usa uma blusa em tom ocre e calças com tonalidade alaranjada / terrosa.

Tide Setubal (Foto: Di Campana Foto Coletivo)

 Durante a abertura do evento, Tide Setubal, conselheira-executiva do Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos e conselheira da Fundação, comentou um dos objetivos da iniciativa e o modo como se conecta com o trabalho dos coletivos atuantes em territórios marcados pela pluralidade.

“A nossa aposta é de que apoiar coletivos e organizações que trabalham com saúde mental nas periferias, fomentando reflexões teóricas e práticas clínicas, assim como aulas e formações, é uma maneira de buscar democratizar o acesso à saúde mental. Nesse sentido, parece-nos muito importante que a produção e a disseminação de conhecimento priorizem epistemologias brasileiras e anticoloniais”, pondera.

O que a psicanálise tem a ver com o território?

O título acima foi o mesmo que nomeou a primeira mesa do Seminário Territórios Clínicos. A atividade, que foi mediada por Emiliano de Camargo David, psicólogo, doutor e mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), teve participação de:

  • Gessica de Paula, fundadora e coordenadora geral do projeto Populações e do projeto Saúde Mental nas Periferias;
  • Priscilla Santos de Souza, psicanalista e doutora em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP);
  • Taily Terena, defensora da terra e dos direitos dos povos indígenas, integrante do Instituto Memória e Ciência Indígena e do Conselho Internacional de Tratados Indígenas;
  • Zeca Carú de Paula, mestre e doutorando em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

Priscilla Santos de Souza destacou, em sua participação, aspectos fundamentais quando se fala nos territórios clínicos. Nesse sentido, deve-se considerar especificidades territoriais, como condições demográficas e socioeconômicas das respectivas populações, assim como a infraestrutura local, têm papel central nesse caso.

“Ao ocupar a partir de uma lógica de organização da materialidade que se estrutura o território, onde estão as casas, os consultórios clínicos e as instituições que atendem? Como são a UBS [Unidade Básica de Saúde] ou o CAPS [Centros de Atenção Psicossocial] em determinados territórios? Qual o tipo de profissional que atende falando de considerações relacionadas à sexualidade, racialidade e às condições materiais das pessoas que atende?”, pondera Priscilla.

Desse modo, a psicanalista considera que “isso tudo é territorializado. Ocupar e pensar essa relação é pensar o desenvolvimento das políticas públicas de saúde mental e das ferramentas clínicas específicas.”

Imagem da mesa 'O que a psicanálise tem a ver com o território?'. As pessoas participantes estão no palco e há uma projeção de tela com o título da atividade em questão e as fotos das mesmas pessoas.

Mesa ‘O que a psicanálise tem a ver com o território?’ (Foto: DiCampana Foto Coletivo)

Outras dimensões dos territórios clínicos

Durante o debate sobre as dimensões que compõem os territórios clínicos, Géssica de Paula falou do surgimento do projeto Saúde Mental nas Periferias. Ela destacou que a origem se relaciona à falta de acesso adequado a cuidados em saúde mental nas periferias. Desse modo, o objetivo foi desenvolver ações que tivessem como marcadores que passassem pela intersecção de território, raça, gênero e condição socioeconômica.

“A escuta tem potência, pode libertar quem clama por socorro e ajudar alguém a compreender os monstros que gritam dentro da própria mente”, explicou. Assim, outro aspecto central para o projeto consistiu em considerar que a psicanálise ainda está afastada de territórios que sofrem de modo severo com o adoecimento mental. 

“Quando não conseguimos encontrar pares dispostos a se dedicar profundamente ao cuidado de quem mais precisa, somos obrigados a encarar uma verdade incômoda: existe um fator estrutural produzindo sofrimento psíquico neste país. O Brasil foi construído derramando o sangue de quem sempre foi excluído e continua derramando.”

Nesse contexto, Taily Terena trouxe à tona a reflexão sobre a importância de se priorizar abordagens pautadas pela coletividade em oposição ao isolamento. “Talvez isso seja um exercício um pouco maior na cidade e que precisemos fazer: no caso, saber onde a pessoa pertenço nesse mundo”, ponderou.

Essa percepção permitiu, desse modo, que se estabelecesse relação entre saúde mental, território e cosmovisão indígena. “Quando se fala em saúde mental, para nós, povos indígenas, há algo muito novo. Estamos tentando entender essa relação que ficou doente a partir da colonização, que nos negou muitos direitos e a nossa identidade. O processo de retomada que estamos fazendo, ao podermos nos reconectar com o nosso território e nossas práticas culturais e a nossa espiritualidade. Falo isso na cosmologia do meu povo, mas serve também para todos nós, indígenas ou não.”

Gênero como território

Assim sendo, a fala de Géssica de Paula conectou-se com a reflexão que Zeca Carú de Paula trouxe à tona sobre a dimensão entre corpo e território. “A ideia que se tem a respeito das performances de gênero é sobre território”, ponderou Zeca. “De algum modo, dizer o que é homem e o que é mulher é sobre falar de fronteira, limite e sobre o que pode e o que não pode acontecer nesse território.”

Para além do debate sobre cisgeneridade e transgeneridade, o doutorando em Psicologia Clínica destacou que sua abordagem iria para além da dimensão de identidade.

“Estou me referindo a compor um espaço que pensa não apenas a categoria, mas a prática psibrasileira, a partir de outros modos de afetação e de produção de saberes. É isso o que me interessa aqui ao dizer disso. Não poderia dizer da dimensão identitária, da representatividade e da representação. Isso também é possível e tem seus valores, mas não é a isso ao que me refiro para marcar a importância política desse plenário”, destacou.

Saiba mais

Por fim, confira a reportagem sobre a segunda parte do Seminário Territórios Clínicos – Segunda Edição.

Texto: Amauri Eugênio Jr.

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  • Clínicas públicas
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  • Programa Saúde Mental e Territórios Periféricos
  • Saúde mental
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