Rompendo vieses da branquitude no fomento a organizações negras
Confira reportagem sobre o trabalho da área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal para eliminar vieses no apoio e fomento a organizações negras

Esta reportagem é parte de uma série de matérias sobre os 20 anos da Fundação Tide Setubal, que mostra as dimensões diversas e coexistentes no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, raciais, de gênero e econômicas
Quando se fala do fomento a organizações negras e de trajetória periférica, um ponto central está em superar e deixar para trás vieses que vêm à tona no que diz respeito a tais iniciativas. Essa abordagem foi preponderante para a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal estabelecer, a partir da escuta ativa, fluxos pautados na desburocratização e na confiança mútua.
Aqui cabe uma observação: tais vieses, comuns à cosmovisão da branquitude, estão presentes de modo estrutural em todas as instâncias que compõem o tecido social. Isso vale para o poder público, para a iniciativa privada, para organizações da sociedade civil e o campo do Investimento Social Privado (ISP). Em resumo, não há esferas sociais, sejam decisórias ou não, imunes a isso.
Diante desse cenário, é fundamental eliminar padrões, inclusive no que diz respeito ao reforço de desigualdades no acesso a recursos para tais organizações. Essa abordagem envolveu, então, o enfrentamento a vieses resultantes do pacto da branquitude para, desse modo, apoiar organizações negras e de trajetória periférica.
Nesse sentido, o diálogo com organizações atuantes nas periferias brasileiras para entender os desafios na garantia de diversidade em eixos diversos foi estratégico para estruturar o trabalho realizado pela área.
“A partir do momento em que temos poder de tomada de decisão sobre quem entra e de quem não participa do fomento da Fundação, se estivermos na condição de poder e de privilégio, é fundamental podermos também rever os critérios”, descreve Guiné Silva, gerente de Fomento a Agentes e Causas.
Novo ecossistema, novo momento e adeus a velhos vieses
Nesse sentido, a área colocou o desenvolvimento de mecanismo para estabelecer equilíbrio e pluralidade territorial, racial e de gênero em processos de análises para tomadas de decisões sobre apoios como uma de suas linhas principais de atuação. Assim, um ponto que veio à tona é a análise contínua de critérios que podem representar pontos de atenção no fomento a organizações negras. Esse processo, vale dizer, é contínuo.
“Como começamos a discutir e pensar em jeitos e mecanismos para podermos garantir equilíbrio e equidade na formulação do nosso portfólio [de organizações apoiadas]? Isso passa pela redefinição e pelo alinhamento dos critérios de seleção e priorização institucionais”, pondera o gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação.
A abordagem no combate a vieses passa por revisões contínuas nos critérios e categorias que estruturam a definição de apoios por parte da área. A saber, essa dinâmica caminha também em consonância com as diretrizes que todas as áreas e programas de influência da Fundação Tide Setubal estabelecem para potencializar o trabalho que cada uma delas realiza.
“Conseguimos avançar para uma proposta de ecossistemas de fomento, a partir de quatro campos temáticos. Esse olhar vale para os ecossistemas voltados à defesa de instituições democráticas, a geração de oportunidades e cultura organizacional da equidade racial, ao desenvolvimento econômico e ao desenvolvimento territorial e à saúde mental e territórios periféricos. Conseguimos também definir nessa estrutura aspectos fundamentais para garantirmos uma das diretrizes do nosso momento: previsibilidade e transparência na relação entre financiador e financiado”, pondera Guiné Silva.
Fomento a organizações negras sem surpresas
A previsibilidade e a transparência são aliadas na melhoria em processos referentes ao fomento a organizações negras em segmentos diversos. Alguns compreendem, então, se o apoio ocorrerá por meio de carta-convite ou de edital, por exemplo, assim como a definição do tamanho que terão uma determinada linha de apoio ou mesmo do repasse para organizações.
Assim, pode-se estabelecer previsibilidade em termos orçamentários e temporais para essas mesmas organizações. Isso é preponderante para elas conseguirem organizar e estruturar o escopo das ações que poderão desenvolver nos seus respectivos territórios de atuação.
Outro ponto passa pela relação de confiança entre entes financiadores e quem recebe o financiamento, também por não haver partes intermediárias nesse contexto. Em sinergia com esses pontos, outro destaque passa por enfrentar vieses intrínsecos ao pacto da branquitude.
“Trata-se também de uma declaração para o campo [do ISP] de que a Fundação tem como diretriz apoiar coletivos e organizações e lideranças de periferias, ou em contextos periféricos. Isso vale também para organizações negras de referência”, pondera o gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação.
Flexibilizar para democratizar
Ao lado da previsibilidade e da transparência quanto à ruptura de vieses da branquitude no fomento a organizações negras, outro aspecto ganha destaque nesse contexto. Trata-se da criação de processos burocráticos simplificados no financiamento, principalmente, para organizações e lideranças periféricas.
Nesse sentido, etapas como o próprio processo de seleção, a prestação de contas sobre os recursos repassados e o envio de documentos passaram por revisão para, mais do que estabelecer novas diretrizes no desenvolvimento de editais e de processos para apoios, reestruturar o modo como a área de Fomento a Agentes e Causas atua e organiza os seus próprios procedimentos.
“Quando se fala em processos flexibilizados, esse é quase um dogma dentro da filantropia brasileira. Isso porque falamos muito sobre isso e os desafios estão colocados. Mas é muito difícil conseguirmos avançar com a agenda da flexibilização dos processos no acesso ao recurso”, ressalta Guiné.
Confiança como elemento-chave
Por fim, a abordagem que tem a previsibilidade, a confiança e a flexibilização de processos como premissas básicas é fundamental para tornar mais plural, diversos e democrático o fomento a organizações e lideranças negras e periféricas. “A partir do momento em que há confiança estabelecida, a organização passa a se sentir mais tranquila em procurar o financiador para discutir o que é o real da organização e não apenas aquilo que pode, em certa medida, agradar a escuta do financiador”, destaca Guiné Silva.
“Considero que conseguimos avançar muito, a partir da estrutura do fomento, em uma relação menos assimétrica e mais de cocriação e de co-colaboração, na qual as organizações têm conseguido estabelecer com a Fundação Tide Setubal – e vice-versa – uma dinâmica real de parceria para a execução dos projetos apresentados”, finaliza o gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação.
Saiba mais
Confira a seguir os demais textos sobre a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal:
- Linha do tempo do apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias;
- Abrir alas para o plano coletivo pela equidade racial;
- Sobre a metodologia para ações de fomento.
Texto: Amauri Eugenio Jr
