Linha do tempo do apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias
Com base na diretriz institucional de que o território importa, a Fundação Tide Setubal desenvolveu diretrizes por meio das quais o apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias se tornou mais simples e ágil

Esta reportagem é parte de uma série de matérias sobre os 20 anos da Fundação Tide Setubal, que mostra as dimensões diversas e coexistentes no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, raciais, de gênero e econômicas
O apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias é um aspecto estruturante e central no trabalho da Fundação Tide Setubal no enfrentamento das desigualdades.
Essa lógica, que funcionou como diretriz institucional desde a primeira década de atuação e norteou o trabalho após a mudança da missão institucional, em 2017, teve papel fundamental para estruturar a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação.
Nesse sentido, uma premissa preponderante para fundamentar o trabalho que a área desenvolve passou pela atuação em conjunto com as organizações e lideranças apoiadas. “O foco [institucional] continuou a ser o orientador de território. Isso facilitou muito o nosso trabalho, pois já tínhamos acúmulo de uma década na relação territorial, entendendo muito da dinâmica dos desafios colocados nos territórios periféricos brasileiros”, explica Guiné Silva, gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal.
Desse modo, ainda que a diretriz institucional valha para o cenário macro em processos analíticos e desenvolvimento de editais, particularidades também têm destaque nesse contexto. “Por mais que periferias sejam periferias em qualquer lugar, elas são divergentes e convergentes ao mesmo tempo. Há muita similaridade nos desafios que estão colocados dentro dos territórios e para as suas lideranças e organizações”, pondera Guiné.
Fator Elas Periféricas
Quando se fala no apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias, a iniciativa Elas Periféricas é emblemática para o trabalho da Fundação Tide Setubal no que diz respeito a raça, gênero e território.
Com quatro edições, o projeto foi a primeira chamada de projetos da Fundação para além de São Miguel Paulista. Assim sendo, processo para desenvolvê-la teve parceria técnica da consultoria ponteAponte e contou com processo de escuta de organizações de territórios diversos da capital paulista.
“Conseguimos identificar, durante a escuta ao longo desse período, ao olharmos e escutarmos lideranças periféricas das cinco regiões da cidade, incluindo a região central, que o maior gargalo estava no desenvolvimento institucional das periferias.” É o que explica o gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal.
Esse diagnóstico conectou-se, então, com outro ponto que veio à tona durante tais pesquisas: editais com abordagem tradicional não fomentam a estrutura de organizações. Ou seja, aspectos que passam pela perenidade e garantam a existência de tais projetos não eram contemplados por processos convencionais de seleção.
Territórios para apoios
Outros pontos que estiveram no radar durante o desenvolvimento do Elas Periféricas foram os componentes racial e de gênero, conforme organizações indicavam que recursos da filantropia não alcançavam iniciativas de mulheres negras.
“A questão de gênero continuava dentro da perspectiva institucional da Fundação. E isso não mudou de uma organização que começou a sua atuação dentro da periferia em São Paulo. Além disso, a equidade racial passou a fazer parte dos nossos objetivos institucionais”, descreveu Guiné Silva.
Tal abordagem foi o fio condutor das quatro edições do projeto. Ao passo que a primeira edição ocorreu a partir de indicações de iniciativas convidadas por meio de cartas-convite, as demais aconteceram no formato de edital. A primeira e a segunda apoiaram seis organizações cada. Já as duas últimas contaram com parceria da rede social TikTok. O suporte financeiro por meio da parceria permitiu expandir o fomento para 135 organizações com abrangência em todos os estados brasileiros. Assim sendo, o apoio disse respeito a 60 organizações na terceira edição e para 75 na quarta.
As organizações passaram também por formações e mentorias em áreas diversas e fundamentais para as suas respectivas estruturas funcionarem de modo perene. Alguns tópicos disseram respeito a temas como gestão administrativa e financeira, comunicação, gestão administrativa e de projetos, captação de recursos e informações jurídicas. Essa abordagem abrangeu também o cuidado com a saúde mental das lideranças das respectivas iniciativas foi um tópico recorrente nesse contexto.
Diante desse quadro, as organizações selecionadas nas duas primeiras edições contaram com acompanhamento de profissionais da Amma Psique. “O acompanhamento do Amma Psique, a partir das descobertas e dos desafios que estavam colocados para as iniciativas e as essas mulheres atuantes nos territórios, nos permitiu repensar também o modo de fazer da terceira e da quarta edições”, pondera Guiné.
Financiamento e fomento coletivos
Lições diversas foram consequências dos anos de apoio e fomento a organizações e lideranças de segmentos diversos por meio de repasses diretos e de iniciativas como o Elas Periféricas.
Nesse contexto, outro projeto que se destaca é o Matchfunding Enfrente. Lançado em 2019, trata-se de iniciativa de financiamento coletivo organizada em conjunto com a plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria.
As campanhas são de matchfunding, em que organizações são selecionadas para captação. Nesse contexto, para cada R$ 1 captado, outros R$ 2 são incluídos por fundo composto pela Fundação Tide Setubal e institutos parceiros.
A primeira modalidade do Matchfunding Enfrente foi a edição para auxílio a organizações atuantes nas periferias durante a pandemia de Covid-19. A ação promoveu apoios a 265 iniciativas das periferias urbanas de 23 estados brasileiros e arrecadou R$ 7.206.734. Assim sendo, R$ 2.438.532 foram captados por meio de crowdfunding e R$ 4.768.202 via Fundo Enfrente. Uma consequência direta da iniciativa diz respeito ao fato de que 209.116 pessoas foram atendidas pelas ações apoiadas por meio da iniciativa.
Outra ação relativa ao Matchfunding Enfrente foi a Onda Estruturante, que começou no segundo semestre de 2020 e cujos alvos foram projetos de longo prazo, com potencial para solucionar problemas que surgiram ou se agravaram com a pandemia da Covid-19, e cuja duração foi de três anos – o suporte contemplou o financiamento e o suporte para a implementação. A iniciativa selecionou 15 iniciativas, que captaram R$ 1.432.497 no primeiro ano. Esse montante foi o somatório do aporte do Fundo Enfrente (R$ 900 mil) com o oriundo via crowdfunding (R$ 532.497).
Já no segundo ano, 14 organizações participaram e arrecadaram, no total, R$ 1.282.804. Houve, então, 2.181 colaborações engajadas financeiramente – R$ 442.804 via financiamento coletivo. Ainda, o Fundo Enfrente aportou outros R$ 840 mil. No terceiro ano, enfim, o apoio a dez iniciativas culminou em R$ 911.675 captados por meio de 1.066 colaborações.
Além disso, o Matchfunding Enfrente promoveu também a onda Geração de Trabalho e Renda, para apoio a pequenos e microempreendimentos de origem periférica. A chamada disponibilizou R$ 2,25 milhões – sendo R$ 1,5 milhão do Fundo Enfrente e outros R$ 750 mil de financiamento coletivo. Desse modo, 134 projetos de diversas regiões do Brasil foram escolhidos para captar R$ 15 mil cada.
Apoio à produção negra e periférica de saberes
Ao considerar a complexidade temática e territorial para fomento para além dos editais, a área de Fomento a Agentes e Causas estruturou a sua atuação, entre 2020 e 2025, quando foram desenvolvidas, então, a partir destas linhas de apoio:
- Fortalecimento de organizações e redes das periferias;
- Fortalecimento de lideranças das periferias;
- Fortalecimento e divulgação de soluções das periferias;
- Desenvolvimento do Jardim Lapena;
- Fomento à pesquisa;
- Mobilização de ISP e da sociedade civil;
- Comunicação de causas;
- Saúde Mental – Territórios Clínicos.
No caso de apoios com foco em pesquisa, pode-se destacar a importância desse segmento graças ao modo como a produção científica pode contribuir para a análise de dados e geração de evidências.
Nesse sentido, tais evidências são centrais quando se fala em fundamentar e dar robustez para ações de advocacy – passando também pelo advocacy colaborativo. O foco dessa abordagem está no enfrentamento das desigualdades, em particular quando se trata de apresentar demandas ao Estado. Por fim, essa abordagem fundamenta a criação de linha de fomento específica para centro de pesquisas voltados à valorização de saberes da – e para a – população negra.
Desde 2026, a área estruturou-se com base em quatro ecossistemas temáticos. Ao contar com 16 novas linhas de apoios, a atual estrutura operacional da área permite que o trabalho para apoio a lideranças e organizações negras e periféricas ocorra de modo ainda mais efetivo. E, desse modo, com impactos cada vez mais veementes e qualificados nos seus respectivos territórios de atuação.
Essa mudança reforça, enfim, a atuação da área de Fomento a Agentes e Causas para estar em consonância com a missão institucional da Fundação Tide Setubal no enfrentamento das desigualdades.
Saiba mais
Confira a seguir os demais textos sobre a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal:
- Abrir alas para o plano coletivo pela equidade racial;
- Rompendo vieses da branquitude no fomento a organizações negras;
- Sobre a metodologia para ações de fomento.
Texto: Amauri Eugenio Jr.
