Sobre a metodologia para ações de fomento
Fundação Tide Setubal desenvolveu metodologia para ações de fomento que visa influenciar o campo do Investimento Social Privado a tornar mais simples e ágeis os processos para apoio a organizações e lideranças negras e periféricas

Esta reportagem é parte de uma série de matérias sobre os 20 anos da Fundação Tide Setubal, que mostra as dimensões diversas e coexistentes no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, raciais, de gênero e econômicas
Influenciar e fortalecer o campo da filantropia e promover um processo de fomento mais acessível e menos oneroso para as organizações. Esse é o objetivo da Fundação Tide Setubal quando se trata do apoio a organizações das periferias.
Ao considerar essa dimensão, a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação recorreu à própria experiência, com base em aprendizados que vieram à tona referentes ao apoio a lideranças e organizações negras e de trajetória periférica, seja por meio de cartas-convites ou de editais, para trazer dinamismo a operações com esse teor. Esse processo culminou, então, no desenvolvimento de metodologia para ações de fomento.
Essa lógica conecta-se, então, à estrutura das três premissas norteadoras para a realização desses mesmos apoios:
- Fortalecimento institucional: trata-se do fortalecimento de competências específicas que promovam a melhoria nas operações institucionais internas das organizações sociais – gestão administrativa, financeira e de projetos, governança, otimização de processos, aumento da visibilidade, entre outros.
- Projetos de intervenção e pesquisa: consiste no apoio para a aplicação de novas práticas e na promoção de mudanças positivas nos territórios, somado à produção de novos conhecimentos sobre as desigualdades e a dinâmica territorial das grandes cidades;
- Desenvolvimento individual: abrange ações de fomento que contribuam para o desenvolvimento integral dos indivíduos apoiados, tanto no aspecto profissional quanto no pessoal.
Relação entre diretrizes e territórios
A abordagem resultante dessas mesmas premissas objetiva, então, eliminar padrões que possam reforçar desigualdades no acesso a tais recursos. Como consequência, assegurar a pluralidade étnico-racial, regional e de gêneros na seleção de projetos apoiados é outra diretriz fundamental para o trabalho da área. E tais atributos foram centrais na estruturação da metodologia para ações de fomento.
Assim, essa mesma perspectiva conecta-se com os objetivos institucionais que a Fundação estabeleceu no enfrentamento das desigualdades, inclusive ao contemplar a pluralidade e especificidades territoriais. Idem no enfrentamento aos vieses relacionados pacto da branquitude.
“Trata-se também de uma declaração para o campo [do Investimento Social Privado (ISP)] sobre a Fundação ter como diretriz o apoio a coletivos, organizações e lideranças de periferias ou em contextos periféricos, assim como organizações negras de referência”, pondera Guiné Silva, gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal.
Desse modo, apoios nesse contexto objetivam, por meio da metodologia para ações de fomento, maximizar a incidência e os impactos nesses mesmos territórios. “Como forma de estrutura de fomento, isso organiza o nosso portfólio, pois gera pluralidade étnico-racial a partir de contextos periféricos, e conseguimos ter um conjunto de organizações que respondem aos desafios colocados para as causas que foram elegidas pela Fundação Tide Setubal, atuando como uma extensão da nossa missão”, explica o gerente da área.
Dos aprendizados à metodologia para ações de fomento
Os aprendizados resultantes desse percurso funcionaram como base para o desenvolvimento da publicação Metodologia de Fomento a Organizações e Lideranças. O material, que teve desenvolvimento em conjunto com a Fundação José Luiz Egydio Setúbal, compartilha o aprendizado na estruturação de estratégias para simplificar processos.
A sistematização conecta-se, desse modo, com o compromisso institucional de compartilhar saberes com organizações do ISP no enfrentamento das desigualdades. Nesse caso, os métodos e ferramentas que abrangem a área de Fomento a Agentes e Causas são compartilhados por meio da lógica de “código aberto”.
Ou seja, qualquer instituição – tanto financiadoras como organizações sociais – poderá usar os recursos disponíveis na metodologia para ações de fomento. Essa abordagem colaborativa permite, então, que recursos e ferramentas possam ser usadas e customizadas também por outras instituições do campo do ISP na trilha para alcançar maior eficiência nos seus respectivos processos de seleção e de acompanhamento de projetos.
“Há um desafio gigantesco no campo com relação ao monitoramento e avaliação dos fomentos praticados. Idem quanto a ferramentas simplificadas de gestão para as próprias organizações também apresentarem os resultados e poderem dialogar de maneira de forma mais organizada, muitas vezes, com os próprios financiadores”, narra Guiné Silva.
Por fim, enquanto essa abordagem passa por aspectos organizacionais, como mensuração orçamentária e produção de relatórios, outro ponto contempla uma dimensão mais humana. Trata-se, enfim, de melhorar o diálogo entre entes financiadores e financiados. “[A metodologia] pode ser também uma forma de inspirar os pares a poderem aprimorar um pouco mais o que vem sendo desenvolvido como prática de monitoramento”, completa o gerente de Fomento a Agentes e Causas da Fundação.
Saiba mais
Confira a seguir os demais textos sobre a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal:
- Linha do tempo do apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias;
- Abrir alas para o plano coletivo pela equidade racial;
- Rompendo vieses da branquitude no fomento a organizações negras;
Texto: Amauri Eugenio Jr.
