Abrir alas para o plano coletivo pela equidade racial
Plataforma Alas, iniciativa idealizada pela Fundação Tide Setubal para apoiar a formação de lideranças negras em fases diversas da vida, evidencia a urgência de haver um plano coletivo pela equidade racial

Esta reportagem é parte de uma série de matérias sobre os 20 anos da Fundação Tide Setubal, que mostra as dimensões diversas e coexistentes no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, raciais, de gênero e econômicas
Um plano coletivo para acelerar a busca pela equidade racial nas posições de liderança. Esta é a premissa da Plataforma Alas, projeto da Fundação Tide Setubal que objetiva apoiar a formação e preparação de lideranças negras com trajetória periférica, em momentos diferentes da vida, para chegarem a espaços de poder e de decisão.
Nesse sentido, a iniciativa tem como uma de suas razões de ser sensibilizar e envolver pessoas brancas em cargos de gestão em ações com esse propósito.
Viviane Soranso, coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso da Fundação Tide Setubal, explica essa dinâmica. “A Plataforma Alas é colaborativa e busca oferecer oportunidades de acesso e desenvolvimento para pessoas negras. Isso acontece tanto via instituições de ensino, ofertando bolsas de estudo ou permanência, ou via edital.”
As ações que a Plataforma Alas coloca em prática dividem-se em três segmentos de atuação:
- Estratégia Asas: visa despertar o interesse de jovens com idades entre 16 a 24 anos habitantes de regiões periféricas e que estejam cursando o Ensino Médio. Idem recém-formados em áreas diversas do conhecimento e no exercício da liderança;
- Estratégia Elos: objetiva incidir sobre a trajetória de jovens estudantes e adultos de origem periférica em busca de cursos de graduação. O apoio vale também para projetos preparatórios para mestrado, concursos públicos e carreiras jurídicas em instituições de excelência;
- Estratégia Caminhos: consiste na organização dos editais Traços e Elas Periféricas. Os editais apoiam, desse modo, o fortalecimento e o aprimoramento no trabalho desenvolvido por lideranças negras e das respectivas organizações que coordenam.
Autogestão, autonomia e apoio
Com quatro edições, o Edital Traços – que teve a nomenclatura Edital Caminhos no primeiro ano – visa apoiar o desenvolvimento de lideranças de áreas marcadas pela sub-representação de profissionais negras e negros.
Para tanto, as pessoas participantes precisaram elaborar um plano de desenvolvimento no qual apresentaram áreas em que identificavam lacunas nas suas respectivas formações. Tais pontos identificados poderiam valer, então, em âmbitos profissional, educacional ou pessoal. Essa mesma descrição mostra como objetivavam investir o valor do fomento para preenchê-las.
“É importante dizer que não somos nós a apontar qual é essa lacuna em questão e como elas e eles devem potencializá-las. Trata-se de percepção e visão das próprias lideranças para a sua trajetória”, pondera Viviane Soranso.
Desse modo, as edições do Edital Traços abrangeram apoios a lideranças, por meio do Fundo Alas – composto pela Fundação Tide Setubal e organizações parceiras – nas seguintes áreas:
- Edital Caminhos (2020-2021): política institucional, empreendedorismo, carreira corporativa e ações sociais e culturais, em que 31 lideranças foram apoiadas;
- Edital Traços (2021-2022): carreira jurídica e política institucional, com fomento a 71 lideranças;
- Edital Traços (2023): 28 lideranças participantes da segunda edição receberam aporte de R$ 15 mil para investir nos seus respectivos planos de desenvolvimento. Ainda, 20 puderam lançar campanhas de financiamento coletivo em formato de matchfunding;
- Edital Traços (2024): 15 lideranças foram selecionadas, sendo nove na área de Ciências Sociais Aplicadas, com foco na área das Ciências Econômicas. Além disso, e outras seis em Ciências Exatas, com foco em cursos relacionados à Tecnologia.
Plano coletivo pela equidade racial na prática
Outro destaque quando se fala em plano coletivo pela equidade racial abrange o envolvimento de organizações do campo do Investimento Social Privado (ISP). Desse modo, pode-se ressaltar que a participação ativa dessas instituições é fundamental para as iniciativas da Plataforma Alas obterem êxito.
Um exemplo passa, então, pelas edições do matchfunding. Participaram dessas mesmas campanhas instituições de ensino que querem fortalecer programas nos quais a equidade racial é um aspecto estruturante. Essa abordagem passa, no primeiro momento, pela garantia de bolsas de estudos para estudantes negras e negros.
Para além dessa perspectiva, o foco está em tornar a pauta antirracista um aspecto estruturante nas respectivas instituições. Logo, o engajamento para além das respectivas campanhas de captação de recursos é fundamental para o sucesso de tais ações.
“Quando a instituição precisa construir uma campanha, que se tornará pública, ela precisa acionar algumas áreas dentro da instituição, como a comunicação, o jurídico e a alta liderança. Como haverá um posicionamento público em relação à agenda, será necessário acionar essas diferentes áreas”, descreve Viviane Soranso.
Para além disso, essas mesmas instituições devem também assumir compromissos com a Plataforma Alas para tornar a equidade racial como um aspecto de fato estruturante. E, por consequência, tornar-se parte desse plano coletivo pela equidade racial. Por exemplo, na contramão de tornar a pauta como um tópico personalista – ou seja, concentrada em uma ou outras poucas pessoas -, deve-se estabelecer mecanismos para torná-la central e transversal nas estruturas dessas mesmas instituições.
Assim sendo, pontua Soranso, “se a agenda estiver permeada nas diferentes frentes da atuação, setores e áreas e está institucionalizada nas suas políticas, a chance de ela cair é mínima.” Essa aposta tem apresentado, então, resultados importantes. Para se ter uma ideia, a edição 2026 do matchfunding da Plataforma Alas mobilizou R$ 1.341.552, no somatório entre as cinco instituições de ensino participantes. Ah, sim: todas elas alcançaram os seus respectivos objetivos.
Pauta perene e contínua
Se em 2020 e 2021 a pauta antirracista parecia sensibilizar e mobilizar institutos e empresas, seja pela comoção causada pela execução do estadunidense George Floyd, em Minneapolis, no estado de Minnesota (EUA), seja pelas consequências socioeconômicas e humanitárias resultantes da pandemia de Covid-19, a realidade passou a ter tons bem menos inclusivos e igualitários nos últimos anos.
A eleição de Donald Trump para o seu segundo mandato como presidente nos EUA retroalimentou uma onda de contra-ataque contra movimentos de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Como consequência, até mesmo ações que continuem a fomentar a promoção da equidade racial acontecem de modo mais discreto do que outrora.
Esse quadro mostra, então, a necessidade de se intensificar a divulgação e a defesa da pauta antirracista para mostrar que se trata de um aspecto estruturante em vez de meramente temático. Idem ressaltar que o plano coletivo pela equidade racial se trata de uma decisão política.
“A Fundação decidiu, em um posicionamento político, que independente se haver outros atores financiando ou não, continuará com essa frente. Isso se dá como um posicionamento político. Entende-se que se quisermos ver alguma mudança, precisaremos ter um processo de longo prazo e de previsibilidade para as instituições parceiras que estão conosco. Idem olhando para as agendas de ação afirmativa, de equidade racial ou de combate ao racismo”, comenta a coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso.
Enquanto o advocacy com o campo do ISP é estratégico para dialogar e sensibilizar organizações desse segmento, demais ações, como de comunicação, têm peso significativo. Um exemplo diz respeito, então, às temporadas da websérie Caminhos pela Equidade Racial, que estão disponíveis no Enfrente, canal da Fundação Tide Setubal no YouTube.
Independentemente da estratégia que se adotar, uma coisa é inegável: fora da promoção da equidade racial não há alternativa. E essa abordagem conecta-se, enfim, com o ecossistema de fomento voltado para a geração de oportunidades e cultura organizacional, por meio do qual a pluralidade e o equilíbrio de fatores como raça, gênero e território são fundamentais para esse propósito.
“A agenda da equidade racial é fundante para queremos pensar em justiça social e democrática e no enfrentamento das desigualdades. Se não olharmos para ela, não trabalharemos nem com justiça social, democrática e tampouco enfrentamento da desigualdade”, finaliza Viviane Soranso.
Saiba mais
Confira a seguir os demais textos sobre a área de Fomento a Agentes e Causas da Fundação Tide Setubal:
- Linha do tempo do apoio e fomento a organizações e lideranças das periferias;
- Rompendo vieses da branquitude no fomento a organizações negras;
- Sobre a metodologia para ações de fomento.
Texto: Amauri Eugenio Jr.
