Qual o papel do jornalismo na defesa da democracia e cidadania?
Mais do que noticiar, o trabalho de repórteres e de veículos jornalísticos precisa democratizar o acesso a informações com foco na defesa da cidadania e da democracia

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre comunicação, eleições e defesa da democracia
Quando se fala em fortalecer valores democráticos, a atividade da imprensa tem espaço central nesse contexto. Nesse sentido, é obrigatório trazer à tona a importância do jornalismo na defesa da cidadania, da pluralidade e do acesso pleno a direitos.
Contudo, ao olhar para o cenário geral, nota-se um descompasso entre o reconhecimento da importância do jornalismo na sociedade e quais tipos de informações, de fato, alcançam a população.
Esse é um dos pontos identificados na pesquisa Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil, da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena. Segundo o estudo, as notícias com mais alcance (24,3%) referem-se a famosos, enquanto tópicos sobre políticas e atualidades têm abrangência de 18,6%. Por outro lado, os segmentos a seguir, mesmo somados, não chegam ao percentual das notícias de famosos:
- Programação cultural: 5,9%;
- Atividades esportivas e de lazer: 5,6%;
- Emprego, trabalho e geração de renda: 5,3%;
- Serviços públicos: 4,5%.
Diante desse quadro, a distância entre a informação que se busca e qual tipo de conteúdo chega a quem procura vem à tona. “Temas importantes para a vida cotidiana, como saúde, educação, trabalho e serviços públicos, por exemplo, aparecem menos nos fluxos espontâneos de informação”, explica Thaís Siqueira, cofundadora do Desenrola e Não Me Enrola e coordenadora da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena.
A notícia chega a quem precisa?
Para além do debate sobre o acesso ao jornalismo na defesa da cidadania, colocar em pauta a urgência de se democratizar o acesso a notícias tem importância extrema. Logo, é fundamental compreender por quais motivos os conteúdos jornalísticos não têm chegado de modo efetivo para as populações de territórios periféricos.
Os números mostram que o jornalismo passa, sim, por uma crise de credibilidade. Para se ter uma ideia, a edição 2025 do Painel TIC feita por Comitê Gestor da Internet (CGI), Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), demonstra que 48% das pessoas usuárias de internet no Brasil desconfiam do trabalho jornalístico. Em contrapartida, esse percentual é maior em comparação com conteúdos compartilhados por amigos e parentes (42%) ou via aplicativos de mensagens (39%).
Logo, há um descompasso entre o trabalho jornalístico e a identificação da comunidade. “Há uma autocrítica importante que o nosso campo precisa fazer. Não basta produzir uma boa reportagem ou uma checagem de qualidade e considerar que o trabalho terminou quando for publicada”, pondera Thais Siqueira, ao trazer à tona reflexões sobre o processo para disseminá-las e distribuí-las.
Nesse sentido, é necessário considerar estratégias para tornar a distribuição mais efetiva. “Precisamos pensar também na circulação: essa informação chega a quem mais precisa dela? Em que linguagem? Por qual canal? Em qual formato? Ela consegue circular no WhatsApp, em áudio, em vídeo curto, nas mídias de jornalismo e educação midiática territoriais e nas redes de confiança que já existem nesses lugares?”
Para recolocar o jornalismo na defesa da cidadania
Vagner de Alencar, cofundador e diretor de jornalismo da Agência Mural e doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), traz um elemento à tona para este debate: a identificação com o enfoque editorial em reportagens. “As periferias apareceram no jornalismo a partir de violência, pobreza e falta de serviços. Esses problemas existem e precisam ser cobertos, mas não dão conta da complexidade desses lugares.”
Contar com correspondentes que conheçam os territórios e tenham vínculos com quem vive neles pode ser uma das soluções para mudar essa forma de retratar a periferia. “Considero que isso ajuda a criar essa identificação. A pessoa não somente se reconhece por ver alguém parecido com ela na reportagem. Ela se reconhece também na pauta, na linguagem e na forma como aquele lugar é contado e apresentado”, pondera.
Ao considerar o compromisso ético com a população, o foco está em reafirmar a identidade comunitária e jogar luz sobre a ausência do Estado quando se trata do desenvolvimento de políticas públicas nos territórios. “Temos um grande compromisso político de resgatar nossa memória, afirmar nossas identidades e, obviamente, lutar por justiça. Esse é também o papel das nossas mídias comunitárias.”
Qual jornalismo importa para as periferias?
“Fala-se muito sobre jornalismo de interesse público no Brasil e no mundo. Mas qual é o interesse público dos territórios? Quem é capaz de analisar e produzir uma cobertura de jornalismo com qualidade do interesse público, que é extremamente diverso e complexo?”
As perguntas do jornalista, educador e pesquisador Ronaldo Matos, cofundador e diretor-executivo do portal Desenrola e Não Me Enrola, trazem questionamentos sobre o impacto do trabalho jornalístico no dia a dia da população que mora em territórios periféricos. Nesse sentido, essa perspectiva reflete-se na urgência de se focar no jornalismo voltado à promoção de pautas que tenham como objetivo melhorar a qualidade de vida da população ao bem comum e às necessidades cotidianas da população.
“Vejo cada vez mais que as populações em favelas estão com nível de critério muito grande quanto ao conteúdo que consomem. Mas isso é atravessado pelo tempo que têm para consumir informação de qualidade”, pondera Ronaldo. Então, quando elas têm uma mídia que produz conteúdo jornalístico que fala sobre uma necessidade real e prática do seu cotidiano e com muitas dimensões, inclusive do acesso prático e da política pública, e sobre o acesso a esse direito, essa dimensão é uma das coisas que as populações dos territórios mais necessitam.”
Em paralelo, Thais Siqueira fala sobre um caminho possível para recolocar o jornalismo na defesa da cidadania. “Democratizar o acesso ao jornalismo não é apenas produzir informação de qualidade. Trata-se de assumir responsabilidade sobre as condições para que essa informação circule e seja efetivamente acessada pelas pessoas.”
A linguagem é a mensagem
Um aspecto fundamental para reforçar o papel do jornalismo na defesa da cidadania, passa pelo modo como as informações são transmitidas. Para além da abordagem editorial, a linguagem é um elemento estratégico nesse contexto.
O vínculo que se estabelece entre veículo e os moradores é um ponto central nessa equação. Para que uma notícia chegue às pessoas e desperte seu interesse, importa pensar em como ela é contada. Isso inclui evitar estereótipos e prestar atenção ao tom usado para falar com a comunidade.
“Se eu disser que a pessoa está errada e explicar [o fato] para ela, provavelmente essa mesma pessoa se fechará antes mesmo de ouvir esse argumento”, pondera Vagner de Alencar. Desse modo, é importante destacar que o uso de linguagem acessível não tem como objetivo impactar a qualidade do conteúdo que se transmite. “Trata-se de fazer uma espécie de tradução. Há uma diferença grande entre retirar a complexidade de um assunto e encontrar uma maneira de explicá-la. Tornar [um conteúdo] acessível é aumentar a possibilidade de as pessoas se apropriarem dela, se informarem melhor.”
Para Carol Luck, pesquisadora em antropologia digital e coordenadora-executiva do Projeto Brief, da Quid, conceitos técnicos são importantes quando ajudam a explicar um determinado fenômeno, mas não podem ser o ponto de partida de diálogos. E isso vale, é claro, para a atividade jornalística.
“Muitas vezes é mais efetivo começar por uma situação concreta, uma experiência cotidiana ou uma pergunta que a pessoa reconheça na própria vida. A partir daí, pode-se introduzir aos poucos informações e conceitos mais complexos. Tornar uma mensagem acessível não significa simplificar o pensamento ou subestimar quem está ouvindo, mas criar caminhos para aquele conhecimento fazer sentido fora dos espaços especializados”, relata
O que evitar para não afastar o público do jornalismo?
- Reportar fatos referentes ao cotidiano da população como se fossem temas banais – problemas com mobilidade urbana, saúde, economia e educação, por exemplo;
- Usar linguagem complexa e distante da população vai na contramão do que o jornalismo se propõe e confunde o público;
- Recorrer a vieses e estereótipos discriminatórios e excludentes.
Texto: Amauri Eugenio Jr.
