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Home > Comunicação > Notícias

Caminhos para criar narrativas políticas que fortaleçam a democracia

Para além do combate à desinformação e ao discurso de ódio, a sociedade civil precisa apoiar iniciativas que tenham como foco o desenvolvimento de narrativas políticas voltadas ao bem comum

8 de outubro de 2026
A imagem mostra uma mulher negra falando em frente a um microfone e a uma câmera. Ela tem cabelos cacheados presos e usa uma camisa com duas tonalidades de lilás - e está à frente de uma parede branca. A foto ilustra o texto sobre narrativas políticas. A imagem mostra uma mulher negra falando em frente a um microfone e a uma câmera. Ela tem cabelos cacheados presos e usa uma camisa com duas tonalidades de lilás - e está à frente de uma parede branca. A foto ilustra o texto sobre narrativas políticas.
Foto: Chad Populis / Pexels

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre comunicação, eleições e defesa da democracia

Ao mesmo tempo em que construir pontes para diálogos com grupos diversos para construir consensos com foco na promoção da equidade, propor narrativas políticas com base nesses mesmos parâmetros é fundamental nesse mesmo contexto para combater perspectivas voltadas à manutenção dessas mesmas disparidades.

Um ponto que vem à tona nesse contexto passa por considerar quais assuntos dominam a agenda pública – e em quais termos. Parte importante desse cenário, que resulta do ecossistema de desinformação, conecta-se com o conceito de firehosing – mangueira de incêndio em tradução livre do inglês. Ou seja, o fluxo de mentiras que pautam a construção de uma determinada narrativa ocorre de modo intenso e ininterrupto.

Nesse sentido, um dos efeitos colaterais do firehosing passa pelo reforço involuntário por parte de quem tenta desmentir ou corrigir uma fake news. Quando se repete um termo – ou conceito -, mesmo para mostrar que é algo falso ou fora de contexto, a consequência é o reforço dessa mensagem. Esse ponto é central no livro Não Pense Num Elefante – Entenda seus valores e aprenda a enquadrar o debate, do linguista George Lakoff.

Para, Carol Luck, pesquisadora em antropologia digital e coordenadora-executiva do Projeto Brief, da Quid, o campo progressista caiu nessa armadilha de modo recorrente nos últimos anos.

“A extrema-direita definia o enquadramento e a gente vinha atrás respondendo, desmentindo, corrigindo. Claro que tem coisas que precisam ser respondidas, mas a disputa comunicacional também passa por conseguir pautar a conversa. Falar sobre aquilo que a gente quer construir, sobre futuro, desejo, vida concreta é importante porque é isso que ajuda a criar identificação, dar sentido à política e mobilizar as pessoas para alguma coisa, e não só contra alguma coisa”, pondera Carol.

Dialogar para construir pontes e narrativas políticas

Outro ponto fundamental na saga para construir narrativas políticas para fortalecer o tecido democrático passa por compreender quais experiências, preocupações e valores organizam a visão de mundo de quem acredita em conteúdos fora de contexto. Nesse sentido, que quem é alvo de correção tende a se defender em vez de refletir.

Desse modo, um ponto estratégico nessa seara passa pela escuta. Esse é um dos tópicos de destaque da publicação Comunicação de Causas: Reflexões e provocações para novas narrativas. O material, que foi produzido pela Fundação Tide Setubal com apoio de Instituto Alana e Rede Narrativas, apresenta reflexões como a disponível a seguir:

Propor-se a escutá-las e, de fato, entender suas perspectivas, forma de estruturar o pensamento e necessidades afetivas, despindo-se de preconceitos e com empatia e real interesse, é fundamental para encontrar valores e ideias comuns. 

Nesse mesmo contexto, é necessário considerar que a comunicação pressupõe troca – o que envolve, é claro, escutar para entender o outro lado. “As pessoas elaboram o mundo a partir daquilo que vivem, das relações que constroem, trabalho, família, território, dificuldades que enfrentam e das soluções que  encontram no cotidiano. Esse conhecimento tem muito valor. Isso porque revela, por muitas vezes, aspectos de um problema que uma leitura mais técnica ou acadêmica não alcança sozinha”, ressalta Carol Luck.

Assim, o processo genuíno de escuta, inclusive ao considerar os saberes já acumulados pela pessoa com quem dialoga ou pelo grupo para o qual se divulga uma determinada mensagem, permite compreender quais experiências importam e por onde começar o diálogo. “Isso ajuda a construir mensagens mais próximas da realidade de quem está ouvindo; portanto, com mais capacidade de gerar conexão e reflexão”, destaca a coordenadora-executiva do Projeto Brief.

Como isso afeta o jornalismo?

O diálogo é fundamental para construir e propor narrativas políticas com foco no enfrentamento das desigualdades. Ao mesmo tempo, outra medida tão importante quanto passa por aproximar da vida cotidiana pautas que fazem parte da vida política.

“Falamos sobre política o tempo inteiro. Isso porque política é o transporte que pegamos para trabalhar, o orçamento da cidade, a escola, saúde, moradia – todos esses sistemas. Trata-se, então, das decisões políticas que interferem diretamente na vida da população e, sobretudo, do [sujeito] periférico”, pondera Vagner de Alencar. Vagner é cofundador e diretor de jornalismo da Agência Mural e doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Ainda nessa dimensão, Gizele Martins, mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ), considera que uma maneira para aproximar a vida política. Isso vem à tona, inclusive, quando a construção de políticas públicas entra na equação – passa pelo apoio a projetos de comunicação e pessoas comunicadoras das periferias. Essa abordagem conecta-se, então, pelo fomento a projetos com esse teor, uma vez que essas e esses profissionais atuam nos seus respectivos territórios.

E, justamente por isso, narrativas políticas com esse perfil compreendem de modo multissetorial os pormenores da realidade local. Para além disso, elas abrangem tópicos referentes às pautas educacional, cultural e de serviço social, por exemplo. E criam vínculos de identificação e conexão com as pessoas que moram nesses mesmos espaços.

“Acredito em uma comunicação atuando nas escolas, desde o ensino básico, até o ensino médio. Estamos atuando na comunicação comunitária, nas nossas favelas, nas ruas e nos eventos culturais não apenas no lugar da cobertura, mas como atuantes nesses locais. Isso porque trabalhamos campanhas, linguagens e produções de publicidade a partir da nossa linguagem e da nossa ética”, finaliza  Gizele Martins.

Texto: Amauri Eugenio Jr.

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