Artistas levam a poesia do Jardim Lapena para a Flip 2026
Jaque Alves e Jéssica Marcele, poetas e slammers da zona leste de São Paulo, realizaram intervenção na abertura de duas mesas da programação oficial da Casa Fundação Itaú com TV Cultura; artistas foram convidadas pela Fundação Tide Setubal

Os versos do Jardim Lapena desceram a serra e chegaram ao centro histórico de Paraty (RJ). Entre 22 e 26 de julho, a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2026) recebeu Jaque Alves e Jéssica Marcele, poetas e slammers da zona leste de São Paulo.
As artistas realizaram apresentações na abertura de duas mesas da programação oficial da Casa Fundação Itaú com TV Cultura, para as quais levaram diversas linguagens artísticas criadas no Jardim Lapena, bairro da zona leste, como poesia, intervenção cênica e musical.
O espaço que recebeu as intervenções da dupla, cuja participação foi articulada pela Fundação Tide Setubal, com acompanhamento da equipe do Galpão ZL, cujas atividades foram gratuitas e acessíveis, teve curadoria do Itaú Cultural.
A participação se deu na sexta (24), com a abertura da mesa Processos criativos – Oralitudes e encantarias, com Eva Potiguara, Waldete Tristão e mediação de Geni Núñez. Jaque Alves e Jéssica Marcele estiveram presentes também na leitura comentada de Rosane Borges sobre Imaginários emergentes e mulheres negras, com mediação de Manuel da Costa Pinto.
Desse modo, a apresentação combinou poesia, cena e música, dialogando com a tradição das oralituras negras, periféricas e originárias e teve os figurinos confeccionados por pessoas criadoras do Jardim Lapena e do bairro União de Vila Nova.
Arte, poesia e engajamento
Andrelissa Ruiz, coordenadora de Prática de Desenvolvimento Local da Fundação Tide Setubal, acompanhou as artistas. “Foi impactante, porque a Flip ainda é um lugar com público predominantemente branco, de classe média e alta. As artistas trouxeram a dimensão da mulher negra periférica com seus diversos desafios, entre eles ser poeta”, pondera.
Nesse sentido, Andrelissa comenta sobre o papel de manifestações artísticas com esse teor para denunciar e conscientizar outros públicos sobre desigualdades socioeconômicas. “A poesia fica forte, bonita, conta uma história, mas essa história tem fome, tem racismo, tem gritos para serem escutados. E elas trazem esse despertar por meio das palavras. É poesia, é militância, mas é sobretudo sobrevivência, porque o artista e escritor periférico ainda não são valorizados como deviam.”
Jaque Alves destacou a importância da participação. “É preciso que nossas vozes cheguem em outros espaços, em outras espacialidades. Nestes dias da Flip 2026, participamos de muitas mesas, rodas de debate e de samba. Tudo isso se relaciona com aquilo que nós fazemos, principalmente se tratando das oralituras, como Leda Maria Martins diz, nas oralituras nossas, negras, periféricas, originárias, territoriais, de outros imaginários. Isso alimenta a nossa arte.”

Jéssica Marcele (à esquerda) e Jaque Alves (à direita) durante apresentação na Casa Fundação Itaú com TV Cultura (Foto: Andrelissa Ruiz)
Casa Fundação Itaú com TV Cultura e a Flip 2026 como território de encontros
A 24ª edição da Flip aconteceu entre 22 e 26 de julho no centro histórico de Paraty. A festa reuniu cerca de mil atividades em 46 casas parceiras, com curadoria de Rita Palmeira e homenagem à poetisa Orides Fontela.
A Casa Fundação Itaú com TV Cultura estreou nesta edição. Com programação do Itaú Cultural, a programação ofereceu atividades gratuitas e acessíveis e, entre os destaques, a conferência de Conceição Evaristo, convidada de honra, e as rodas de conversa sobre tecnologia, cultura e mercado editorial.
Para Jaque, a experiência não se limitou à apresentação. “Foi muito importante viver isso, participar dessas duas mesas, porque a nossa intervenção e o debate das mesas se retroalimentaram, se responderam. Tudo aquilo que estávamos recitando foi debatido na mesa, sem que isso estivesse combinado. Nós vemos que, mesmo estando distante e em outros territórios, a nossa ancestralidade dá um jeito de se conectar naquele momento.”
Possibilidades de experimentar no território após a Flip
A participação na Flip 2026 gerou novas perguntas para Jaque Alves sobre como a arte periférica pode ocupar espaços culturais. “O que eu queria deixar de contraponto é que a Flip precisa se ampliar e possibilitar a acessibilidade para que outros corpos consigam estar nas mesas e nos debates. O que se vê ainda é uma presença predominante dos que sempre tiveram acesso.”
Jaque também destacou o respeito aos artistas independentes. “Ainda que em minoria encontrei pessoas que, como eu, estavam vendendo livros nas ruas e indo de mesa em mesa. Como damos o devido respeito a tais artistas independentes que não alcançaram visibilidade midiática, mas cujo trabalho é tão importante quanto quem já está consolidado?”
E por falar em projetos independentes, Jessica e Jaque aproveitaram para divulgar quatro obras que estão envolvidas:
- Antologia – O Livro Negro dos Sentidos, que Jaque Alves assina com outras escritoras;
- Antologia poética – Terreno Baldio: poesias e outras quebradas, de Jessica Marcele com o Coletivo Pretas Peri;
- Pilares: raízes espelhadas, com autoria das duas;
- Na Alcova da Deusa – A felicidade mora no meio, autoria de Patrícia Jimin e que virou websérie com participação das duas como atrizes.
O Lapena também colhe frutos
A participação na Flip 2026 foi, para Jaque, um passo em uma trajetória que continua. “Carregaremos isso no coração, na memória e na nossa arte. E que venha muito mais.”
O convite à Flip 2026 insere-se em uma estratégia de fortalecimento das lideranças culturais do Jardim Lapena. A experiência em Paraty, ao lado de escritoras e pesquisadoras de diferentes regiões, é também um aprendizado que retorna ao território.
As possibilidades de levar as experiências para o bairro, após a vivência na Flip 2026, envolvem a ampliação do repertório de atividades, o fortalecimento da rede de artistas locais e a inspiração para que outras vozes ocupem os espaços a que têm direito.
