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Home > Comunicação > Notícias

Comunicação política e tecnologia como aliadas do bem comum

Como redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas e demais plataformas tecnológicas podem auxiliar em estratégias de comunicação política e tecnologia voltadas à promoção da cidadania? Saiba mais

6 de outubro de 2026
Imagem de uma mulher negra usando um notebook. Ela usa uma blusa branca, está com fones sem fio na cor branca e usa uma mesa sobre a qual está também um tripé com uma câmera. A foto ilustra o texto sobre como a aomunicação política e tecnologia podem ser aliadas do bem comum. Imagem de uma mulher negra usando um notebook. Ela usa uma blusa branca, está com fones sem fio na cor branca e usa uma mesa sobre a qual está também um tripé com uma câmera. A foto ilustra o texto sobre como a aomunicação política e tecnologia podem ser aliadas do bem comum.
Aspen / nappy.co

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre comunicação, eleições e defesa da democracia

Graças aos algoritmos e às bolhas das redes sociais, cada pessoa tem um universo para chamar de seu. O risco de esse ambiente estar repleto de conteúdos cujo objetivo é enganar quem os consome torna-se ainda maior quando essas mesmas mentiras online são repassadas com frequência em aplicativos de mensagens instantâneas.

Isso pode até mesmo ganhar escala ainda maior quando essas mesmas fake news perigam servir como base para respostas geradas por chatbots de plataformas de inteligência artificial. Sejam bem-vindas e bem-vindos à conflituosa dinâmica entre comunicação política e tecnologia. Sejam bem-vindas e bem-vindos à internet.

Ao considerar-se a realidade brasileira, segundo a edição 2026 do relatório Reuters Institute Digital News Report, 17% das pessoas entrevistadas relataram consumir, de modo majoritário ou integral, materiais produzidos por criadores de conteúdo e influenciadores focados em notícias. Ainda no mesmo levantamento, 13% das pessoas relataram usar ferramentas de IA para buscar por notícias. Foi possível também identificar o seguinte:

  • 44% relataram fazer perguntas a um chatbot sobre reportagens;
  • 37% pediu para estar a par das últimas notícias;
  • 33% pediram para uma ferramenta de IA resumir conteúdos jornalísticos.

Todavia, segundo a edição 2025 do Painel TIC – Integridade da Informação, o jornalismo tradicional apresenta números mais discretos. Enquanto isso, 15% das pessoas entrevistadas relataram ter acesso a notícias várias vezes diariamente por meio de aplicativos de mensagens. Na contramão desse indicador, 22%, ao menos uma vez por dia. Ainda, esse patamar para jornais ou sites (incluindo aplicativos que pertencem a esses mesmos veículos) é de 11% para quem acessa por diversas vezes ao dia. Em paralelo, o percentual e de 15% para pelo menos uma vez.

Desigualdade digital no acesso à informação e à IA

Qualquer análise sobre a dinâmica entre comunicação política e tecnologia deve considerar que a população brasileira passa, em média, 116 horas semanais conectada à internet. Ainda, estima-se que brasileiras e brasileiros usem chatbots de IA por quase três horas semanais, sendo que 32% os consideram como partes essenciais da rotina.

Outro ponto sobre o qual pensar é o tempo para busca de informações por dia. Segundo a pesquisa Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil, da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena, 29% das pessoas entrevistadas investem entre uma e três horas diárias para consumir informações. Esse patamar chega a 22% para quem leva de 30 minutos a uma hora nesse cenário. Enquanto isso, o grupo que usa de 15 a 30 minutos chega a 17%.

Em paralelo, é necessário refletir também sobre a desigualdade no acesso a esses mesmos recursos. Segundo dados da edição 2025 do Painel TIC, 69% de pessoas da classe A usam ferramentas de inteligência artificial. Todavia, 31% afirmam não usá-las. Essa proporção inverte-se na classe C (32% usam, enquanto 67% não a acessam e 1% não sabe dizer). No que diz respeito às classes DE, o abismo é ainda maior: 16% relatam usar; todavia, 82% não recorrem a tais ferramentas.

Nesse sentido, o uso cada vez mais massivo de redes sociais tem motivado o aumento de análises. Esse mesmo cenário influencia também o desenvolvimento de estudos sobre os seus impactos na capacidade de atenção, concentração e memória.

Um ponto que vem à tona nesse cenário é o conceito de desigualdade informacional, que se relaciona com o acesso e o modo como as informações são consumidas. “Isso vem contribuindo para populações, principalmente em vulnerabilidade social extrema, desenvolverem outros problemas estruturais”, pondera Ronaldo Matos, cofundador e diretor-executivo do portal Desenrola e Não Me Enrola.

Vieses na dinâmica entre comunicação política e tecnologia

Um ponto importante quando se trata no modo como comunicação política e tecnologia se relacionam passa pela reprodução de vieses. Para além da disseminação de conteúdos que, a depender da bolha algorítmica, reforçam e confirmam vieses, ainda que à base de muito conteúdo mentiroso, os chats de inteligência artificial reforçam essa dinâmica. Um exemplo nesse contexto é esta reportagem da Mural sobre como IAs descrevem características gerais de bairros das periferias da capital paulista e de municípios da Região Metropolitana de São Paulo.

“Os sistemas não são produzidos no vácuo: Eles aprendem a partir dos grandes volumes de informação, que também carregam preconceitos e desigualdades da sociedade. Existe, então, o risco de a tecnologia reproduzir uma visão estereotipada das periferias”, explica Vagner de Alencar, cofundador e diretor de jornalismo da Agência Mural e doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Tal abordagem conecta-se com a apresentada por Gizele Martins. Gizele é mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ), moradora do Complexo da Maré (RJ) e militante dos direitos humanos. Para Gizele, os conteúdos disseminados em plataformas das big techs induzem à desinformação. Isso porque remetem ao controle do imaginário, da identidade e da memória populares por meio da recomendação de conteúdos via algoritmos para amplificar o alcance dessas mesmas mensagens.

“Se você mora em um lugar que é feio e somente tem bandidos, como a mídia comercial diz, essa população quer meter o pé da favela. Ou seja, não há senso de coletividade: existe o senso de você querer vencer na vida para sair da favela, ou seja, em âmbito individual.”

Em paralelo, Ronaldo Matos apresenta outra reflexão – neste caso, específica sobre o uso de ferramentas de IA no ambiente escolar. Enquanto casos nos quais estudantes têm recorrido ao uso de recursos com esse teor para fazer trabalhos escolares, a liberação do uso de IAs em escolas públicas chega a 47% dos casos. Em contrapartida, esse patamar é de 31% em instituições particulares.

“Como estudantes de escolas públicas têm usado a IA dentro e fora das escolas? Como isso está impactando o aprendizado e a percepção sobre o seu território? Esse é um debate muito estrutural, que coloca em xeque a perspectiva de se ver a crescente de juventudes negras e periféricas acessando o ensino superior público ou privado”, descreve.

Como garantir o direito à informação na era digital?

Ao passo que tensionamentos na relação entre comunicação política e tecnologia têm se intensificado, é fundamental considerar quais caminhos são pertinentes nesse contexto. Um caminho passa pela regulação da atuação das big techs e do funcionamento das IAs. Nesse sentido, um exemplo é o Marco Regulatório da Inteligência Artificial, que foi aprovado pelo Senado e agora tramita na Câmara dos Deputados.

Outro símbolo desse debate é o Estatuto Digital da Criança e Adolescente (ECA Digital). A sanção desta lei ocorreu em março deste ano. Desse modo, a legislação estabelece diretrizes para a atuação das big techs quanto ao uso que menores de 18 anos fazem dessas mesmas plataformas. No caso do ECA Digital, que tramitava havia anos no Congresso Federal, a sua aprovação veio na esteira de vídeo veiculado pelo influenciador Felca sobre adultização e o risco que crianças e adolescentes corriam ao usar tais plataformas.

“Um dos desafios é tirar esse debate do abstrato. ‘Regulação de plataformas’ ou ‘regulação de inteligência artificial’ podem parecer discussões muito técnicas e distantes da vida cotidiana. Mas a percepção muda quando mostramos o que está concretamente em jogo, como uma pessoa que sofreu um golpe, alguém que sofreu com perseguição ou ataque em uma plataforma, ou uma criança exposta a situações de abuso porque não havia mecanismos adequados de proteção”, destaca Carol Luck, pesquisadora em antropologia digital e coordenadora-executiva do Projeto Brief, da Quid.

“Quando a regulação de plataformas passa a ser compreendida como uma questão de segurança e proteção de pessoas reais, essa discussão ganha muito mais impacto e capacidade de mobilização”, pondera.

Outra estratégia a se considerar nesse contexto passa pelo apoio a coletivos e demais projetos jornalísticos independentes e atuantes nas periferias. Idem por fomentar projetos que tenham como foco promover a educação midiática.

“[Trata-se de] investir na organização e na mudança, e esse é um aspecto muito estrutural. Se eu estiver produzindo uma cobertura jornalística, tenho o papel de bater nos desertos de informação e fazer com que o interesse público daquele território seja representado na cobertura jornalística”, descreve Ronaldo Matos.

Mais uma possibilidade passa por, enfim, considerar o impacto que formatos offline têm no que diz respeito ao acesso à informação. Tal abordagem dialoga, então, com uma das recomendações da pesquisa Dos territórios indígenas às periferias:

É fundamental incorporar estratégias offline, como materiais impressos, rádios comunitárias, carros de som e ações presenciais, ampliando o alcance da informação e garantindo que ela chegue a públicos com acesso limitado à internet.

Essa perspectiva demonstra, enfim, que ações offline têm relevância para colocar em prática estratégias de comunicação para além do ambiente digital. “As redes sociais estão aí para o bem ou para o mal. Mas o impresso e a conexão, a partir de diferentes iniciativas, são também fundamentais também para o nosso exercício do jornalismo local”, finaliza Vagner Alencar.

Texto: Amauri Eugenio Jr.

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