Educação infantil, gênero e classe, por Maria Malta Campos
Com a estreia da segunda temporada do podcast 'Escute as Mais Velhas', em 7 de abril, relembramos o episódio da primeira fase no qual a socióloga Maria Malta Campos abordou o papel central das creches públicas como um direito fundamental para a autonomia feminina
“Para mim, coube a questão da creche. Eu não sabia nada a respeito, pois a pré-escola não tinha nada a ver com creche à época. Tratava-se de algo [sobre a] assistência social, apenas para quem estava precisando muito. Tinha na legislação trabalhista, mas era pouco cumprida. Aí, tive de correr atrás para preparar essa parte.”
Foi assim como a socióloga Maria Malta Campos descreveu, no podcast Escute as Mais Velhas, o seu primeiro contato com a pauta relativa às creches. Sem saber, essa se tornaria a porta de entrada para ela tornar-se uma referência na luta pelo direito às creches públicas.
Nesse sentido, o ponto de partida foi a instituição de 1975 como o Ano Internacional da Mulher pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Esse marco foi, então, o pontapé inicial para a mobilização de mulheres, dentro da sociedade civil, para pleitear pela promoção da equidade de gênero no contexto governamental. A partir desse episódio, que culminaria na realização de um depoimento na Câmara dos Deputados.
A partir da sua experiência anterior na área pedagógica e do seu engajamento em movimentos em favor da esfera educacional, Maria Malta Campos tornou-se, por meio da articulação das lideranças convocadas para o depoimento em questão, desenvolver um estudo de caso sobre creches. Desse modo, a defesa de tais aspectos baseou-se na busca por informações sobre o tema existentes no Jornal Movimento. O periódico, que à época foi um dos veículos mais emblemáticos da imprensa alternativa, era alvo recorrente durante a ditadura.
“Eles [a equipe do Jornal Movimento] tinham o jornal todo riscado pelos censores, pois precisavam enviar a prova antes para censura. Aí, foi tão censurado que eles desistiram de publicar aquele número. Então, peguei os dados que os jornalistas tinham conseguido para aquele número – um dos assuntos era a creche.”
Passos seguintes
Maria Malta Campos tornou-se ativista em favor da defesa do acesso à creche como um direito fundamental – e, consequentemente, dentro da esfera educacional. Essa perspectiva abrangeu, então, a inclusão de equipamentos desse teor, por meio do texto da Constituinte, como um aspecto da área educacional.
“Ela [a creche] ganhou uma relevância que não tinha na área de assistência social, pois a educação é para todas as pessoas. Por outro lado, no caso da da assistência social, era só para quem precisava dela. E, com isso, Então, mudou-se a natureza do conceito”, destaca. “Essa foi uma vitória muito importante, pois a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional], que veio após a Constituição, demorou muito para sair.”
Ainda que o panorama sobre creches apresente problemas crônicos – vide o estudo da ONG Todos pela Educação segundo o qual quase 2,3 milhões de crianças estejam fora de creches por falta de vagas ou de unidades próximas disponíveis -, a mobilização social sobre o tema, que teve Maria Malta Campos como uma das principais referências, tornou-se um tópico com importância central na sociedade. Essa abordagem vem também à tona quando se fala em fatores como emprego e equidade de gênero.
“[Esse tópico] também mexia muito com a questão da mulher e uma mulher de outra classe social, que era sustento da família, precisava sair e deixar o menino com a vizinha, que tinha uma série de problemas”, relata. “Desse modo, ao haver uma experiência interessante de creche, era algo muito interessante, como ainda existe hoje. Líderes comunitárias que fazem um monte de coisa, que trabalham com horta comunitária, que trabalham com educação de adultos, e que trabalham com creche.”
Por fim, Maria Malta Campos destaca que as creches fazem parte da base da sociedade. “Acho, nesse caso, que entramos nesse assunto e produzimos, ao mesmo tempo, que ele evoluía. E tornou-se um assunto mais oficial, entrando na legislação, pois não estava lá antes”, completa.
Para dar play e maratonar
Com apresentação de Maria Alice Setubal, presidente do Conselho Curador da Fundação Tide Setubal, e Sueli Carneiro, filósofa e ativista, coordenadora executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra, o programa coloca em pauta história e celebrar a trajetória de mulheres extraordinárias.
Ouça a íntegra do episódio com Maria Malta Campos no feed do podcast Escute as Mais Velhas. Por fim, maratone também os outros episódios que compõem a primeira temporada e confira a segunda temporada do programa.
Texto: Amauri Eugênio Jr.
