Projeto Eu no Singular coloca masculinidades negras no centro de diálogos e reflexões
Projeto Eu no Singular tem como objetivo colocar em perspectiva aspectos que compõem a construção social de homens negros e maneiras para encontrar novos horizontes para ação no dia a dia

Contornar a dificuldade para reconhecer sentimentos, dar conta de todas as tarefas, lidar com inseguranças e criar ambientes seguros para diálogos sobre masculinidades negras estão entre os objetivos do projeto Eu no Singular. A iniciativa realiza um ciclo de oito encontros que passam por temas como arte, cultura, saúde mental e bem-estar.
As atividades acontecem no Galpão ZL, núcleo de Prática de Desenvolvimento Local situado no Jardim Lapena, bairro da zona leste de São Paulo, assim como em demais espaços, com base na criação de um ambiente seguro no qual os participantes não tenham medo de “errar” e possam manifestar as suas próprias questões e vulnerabilidades.
“Em detrimento das especificidades de cada participante, além da subjetividade de cada indivíduo, as reflexões, ao mesmo tempo que são amplas, conectam-se em algum momento. Mesmo com temas centralizadores, cada homem negro contribui com uma experiência reflexiva diferente”, descreve Danilo Eustáquio, idealizador do projeto Eu no Singular.
Para Ana Paula Correia, cientista social, ativista do feminismo negro e pesquisadora sobre relações de gênero, raciais e movimento de mulheres, experiências como essa importam para a ruptura de paradigmas. “Tenta-se, assim, romper um lugar construído nas masculinidades, principalmente negras e periféricas, na qual homens não conseguem falar de si e de seus sentimentos.”
Dialogar para elaborar
Um ponto emblemático no projeto Eu no Singular é sobre o desenvolvimento e a organização de rodas de conversas com essa proposta serem estratégicos na reflexão sobre masculinidades negras.
É o que relata Viviane Soranso, coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso da Fundação Tide Setubal. “A dinâmica dos encontros permite-os refletir sobre a formação deles e como desapegar de valores e comportamentos tóxicos para entenderem que a busca por equidade de gêneros não é a perda de direitos para eles. Com isso, todas as pessoas irão se beneficiar com o combate à misoginia.”
Essa abordagem conecta-se com a percepção que Sergio Ricardo Nascimento, participante do projeto, tem sobre os encontros. “Como homem negro, ter um espaço de fala, identidade e interação é de extrema importância. Por sermos desde sempre colocados em um papel no qual não dá margem a fragilidades, isso nos adoece de várias maneiras e desencadeia um estereótipo distorcido de masculinidade. Ao lidarmos com isso por meio de espaços de conversa e vivências, temos oportunidade de ressignificar muita coisa e corrigir essa distorção.”
Projeto Eu no Singular e nós no plural
A própria vivência de Danilo Eustáquio teve papel preponderante na criação do projeto Eu no Singular, à época da pandemia de Covid-19. A importância do projeto veio à tona quando aspectos subjetivos e a identificação dos próprios sentimentos e pensamentos davam as caras. Essa percepção tornou-se mais evidente conforme ele dialogava com outros homens negros.
Em paralelo com a produção do documentário Na Cor da Ansiedade, do qual é diretor e aborda questões particulares à vivência de homens negros, Danilo pôde identificar que a iniciativa aumentou o senso de representatividade entre os participantes.
Em paralelo, o aumento de episódios com teor misógino escancarou a urgência de haver iniciativas com esse teor. Para se ter uma ideia, estima-se que 72,5% das pessoas com idades entre 14 e 29 anos correspondiam a esse grupo. Para além disso, 62% de motoristas de aplicativos de transporte e 68% de entregadores autodeclaram-se negros. Ainda, um estudo do Instituto Sou da Paz indica que 79% das vítimas de homicídios por arma de fogo correspondem a esse grupo.
Em paralelo com projetos e iniciativas perante a diversas esferas de poder para a luta pela equidade racial, estabelecer espaços seguros para homens negros falarem sobre as suas próprias questões é fundamental. “Existe o modelo ideal e o que é factível, pois nem todo homem negro está disposto a ‘bancar’ essa receita de demonstrar suas inseguranças. Para alguns, isso não os ajudam a lidar com suas próprias questões”, pondera Danilo Eustáquio.
Teoria e prática interseccionais
“Pensar em equidade de gênero também é bom para os homens. Eles são também vítimas, pensando em machismo, patriarcado e em todas as [formas de] violências. Os homens reproduzem violência e sofrem muita violência. Isso relaciona-se com a construção da masculinidade e está muito forte na nossa cultura, mas pode ser transformada – não foi sempre assim.”
Esta pensata proposta por Ana Paula Correia, que participou também do encontro misto dentro do projeto, traz à tona a perspectiva segundo a qual homens precisam ser agentes no combate à misoginia.
Enquanto são atravessados por dimensões do racismo estrutural, institucional e recreativo, homens negros podem reproduzir padrões misóginos. Isso escancara a urgência de se romper com tais vieses. “Falar sobre a intersecção entre gênero é raça é fundamental para compreendermos o modo como a sociedade se estrutura e essa dimensão passa, é claro, pela construção de homens negros”, reforça Viviane Soranso.
Assim sendo, a coordenadora do Programa Lideranças Negras e Oportunidades de Acesso destaca a necessidade de se cobrar do poder público e da sociedade civil reforços para se maximizar a aplicação de legislações com foco no combate à misoginia, como a Lei Maria da Penha. Mas a mudança vai além da esfera criminal. “Ao mesmo tempo, é necessário desenvolver ações efetivas para os homens refletirem sobre seus comportamentos e a sua construção social para que não reproduzam atos com esse teor. E, com isso, desapegar de valores com teor misógino.”
Construindo novos horizontes
Para além dos diálogos, o projeto mostra que é possível haver reflexos no comportamento cotidiano dos seus participantes. Um exemplo é o apresentado por Sergio Ricardo Nascimento. “Os assuntos abordados impactaram positivamente no meu dia a dia. Eles passam por temas sensíveis e de grande relevância no autoconhecimento e na resolução de questões que afetam nosso convívio em grupo e familiar. Idem na nossa autoestima e na noção pertencimento social.”
Nesse contexto, Danilo Eustáquio considera que os participantes dos encontros estão, enfim, mais seguros de si para expressar as suas questões e comunicá-las. “Alguns compartilham como fazem para lidar com determinadas situações, sugerem práticas mais saudáveis, compartilham vivências positivas e demonstram exemplos cotidianos. Isso já é um grande avanço: reconhecer erros e virtudes. Idem traçar caminhos que sejam mais equilibrados e menos danosos entres homens negros e com seu entorno social”, finaliza.
Texto: Amauri Eugenio Jr.
