Temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro faz chamado contra violências de gênero
A temporada 6 da websérie ‘Ancestrais do Futuro’ propõe a produção de curtas-metragens com novos horizontes e imaginários sociais pautados na equidade de gênero

Fabular futuros contra as violências de gênero. Este é o mote da temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro. A iniciativa da Fundação Tide Setubal tem como objetivo fomentar o protagonismo de coletivos audiovisuais das periferias brasileiras para desenvolver narrativas, imaginários e diálogos sobre visões de mundo e horizontes para o futuro.
Desta vez, a nova fase da websérie propõe-se a abordar a relação entre a vida das mulheres e de pessoas de identidades de gênero dissidentes e as violências que atravessam seus corpos e os territórios que habitam.
A realidade mostra quão aterrador é o panorama atual. Para se ter uma ideia, em 2025 o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio. Ou seja, trata-se de média na qual quatro mulheres foram assassinadas por dia. Ainda dentro desse cenário, 62,6% das vítimas de crimes com esse teor são mulheres negras.
Diante desse quadro, é urgente haver reflexão para o chamado à ação em âmbito social. É o que destaca Fernanda Nobre, gerente de Comunicação da Fundação Tide Setubal, sobre o objetivo da websérie.
“Chegar à sexta temporada é manter o nosso compromisso com as narrativas periféricas e com o incentivo para que esses grupos contem suas histórias. Nesse contexto, consideramos que os diálogos e provocações idealizados por coletivas audiovisuais desses mesmos territórios são fundamentais para a fabulação de futuros nos quais episódios de violências de gênero não tenham espaço e sejam devidamente repudiados.”
Contranarrativas, conscientização e alerta
A produção de contranarrativas com foco na equidade de gênero tornou-se um dos motores da temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro. Nesse sentido, a produtora cultural, gestora de projetos sociais e culturais e pesquisadora Jéssica Cerqueira, também uma das integrantes da coordenação executiva da websérie, considera que o desenvolvimento de projetos com esse teor é urgente e necessário para combater as violências de gênero.
“Temos visto muitos grupos masculinistas e influenciadores crescendo nas redes sociais com discursos de ódio contra mulheres e corpos dissidentes. Idem discursos misóginos, transfóbicos homofóbicos e lesbofóbicos. Isso tem chegado principalmente aos jovens e até às crianças como forma de humor, conselho, modelo de sucesso e referência sobre como ser homem”, pondera.
Desse modo, Jéssica traz à tona a urgência de materiais que combatam a normalização de discursos de ódio tenham nova roupagem e novos recursos narrativos. “As formas antigas permanecem e outras são construídas: violências das mais diversas formas, dominação sobre esses corpos e uma contínua desumanização.”
Lekún Barboni, integrante da Ofà Dodún, coletiva da quinta temporada da websérie, e participante do processo de seleção da fase atual, considera que os grupos da fase atual seguem uma linha semelhante quando se trata da diversidade da expressão de gênero.
“Ressaltar a pluralidade de experiências sobre ser mulher é uma estratégia interessante para produzir conhecimento e reflexão sobre como a vida se manifesta em diferentes realidades e corpos. Idem evidenciar como as violências se estruturam para oprimir e cercear direitos das mulheridades em diálogo com outros aspectos sociais e políticos. Alguns deles, como trabalho, educação e saúde, atravessam a luta e resistência por direitos humanos que garantam o bem-viver”, pondera.
Sobre a temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro
O pontapé inicial da temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro aconteceu por meio do Lab Enfrente. Essa etapa consiste, então, em ciclo de formação no qual participaram coletivas convidadas das periferias de diversas regiões do território nacional.
Os encontros passaram, então, por tópicos como roteiro, fotografia, direção, montagem, distribuição e financiamento. Após essa etapa, as coletivas participantes puderam enviar os seus respectivos projetos para o desenvolvimento de curtas-metragens com até oito minutos de duração e que fossem condizentes com a proposta da temporada.
Assim sendo, essas mesmas propostas passaram por processo de curadoria e seleção. O processo culminou na seleção das cinco coletivas, que receberão cada uma R$ 25 mil para produzir os seus respectivos episódios:
- Cine Diáspora, de Belém (PA);
- Coletivo Audiovisual Munduruku, de Brasília (DF);
- Filmes Sem Nome, de São Paulo (SP);
- Na Cuia, de Belém (PA);
- Parasita Filmes, de São Paulo (SP).
Para Lekún Barboni, conhecer aspectos subjetivos e técnicos da produção dos projetos em questão permite ampliar a compreensão sobre como o processo criativo pode ocorrer de maneiras diversas partindo de uma mesma proposta.
“Ter produzido um episódio para a temporada 5 [Boca de Tudo] influenciou de forma muito evidente minhas contribuições na avaliação das propostas deste ano ao, por exemplo, ao buscar identificar aspectos criativos e ousados na criação dos episódios para que se tivesse indícios de originalidade e frescor na abordagem do tema da temporada atual. Essa foi uma questão complexa que me movimentou na análise”, explica.
Curadoria e força narrativa
O cineasta Well Amorim, que é também um dos membros da coordenação executiva da temporada atual, destaca a pluralidade narrativa dos projetos no debate sobre equidade de gênero. Nesse sentido, a amplitude temática passa por tópicos como a homenagem em formato documental a lideranças periféricas e afroamazônidas, dissidência de gênero e combate à opressão e resistência a estruturas patriarcais e misóginas. Idem sobre tópicos como relações de trabalho, sustentabilidade e mobilização pelo bem viver.
“Os territórios não são mera paisagem. Eles são na verdade protagonistas das histórias a partir das vivências de corpos que sofrem com a violência de gênero”, pondera. Desse modo, ainda que as narrativas propostas respondam ao chamado da temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro, tais histórias partem da própria atuação desses mesmos grupos.
“As coletivas estão em busca de retratar a realidade de milhares de mulheres e pessoas dissidentes de gênero no Brasil. Apesar das desigualdades estruturais e dos preconceitos enfrentados diariamente, elas constroem estratégias de cuidado e esperança, mirando a construção de futuros mais seguros para as próximas gerações a partir do conhecimento ancestral”, pondera Well.
Pelo direito e por recursos para contar as próprias histórias
“Um dos pontos mais potentes do Ancestrais do Futuro é o recurso ser livre e desburocratizado. Ou seja, é da coletiva e a aplicação em seu dia a dia é algo que o grupo decidirá.”
Esta fala do educador e comunicador popular Tony Marlon, integrante da coordenação executiva da série, evidencia um dos pontos centrais na temporada atual.
Desse modo, o projeto joga luz em pontos de atenção fundamentais quando se fala em projetos no campo da filantropia com foco em coletivos de comunicação atuantes nas periferias. Idem sobre condicioná-las a demandas e objetivos específicos. “A minha vivência diz que isso reduz muito a possibilidade de inovação, de enfrentamento das desigualdades identificadas nos territórios e até de experimentação da comunicação como linguagem e estratégia de luta política”, pondera Tony.
Para tanto, o respeito à autonomia das coletivas, que é uma das razões de ser da websérie Ancestrais do Futuro, vai além da dimensão financeira.
Desse modo, o fomento reflete-se também na tranquilidade para essas mesmas coletivas contarem as suas respectivas histórias. “Outro aspecto é o quanto de experimentação de linguagem, formato, narrativa e de abordagem que surge a partir do chão dos territórios, quando os grupos podem ser inventivos sem se preocupar a limitar a sua imaginação a uma série de regras preestabelecidas para investimento do recurso”, completa Tony.
Sobre respeitar legados
O processo de curadoria da temporada 6 da websérie Ancestrais do Futuro contou, enfim, com participações de três representantes de coletivas selecionadas nas edições anteriores:
- Lekún Barboni, da Ofà Dodún (temporada 5);
- Rute Araújo, da Souza.Doc (temporada 3);
- Regiane Souza, do Núcleo AOTA (temporada 4).
Texto: Amauri Eugenio Jr.
