Estado ausente, mentira presente: por que a ausência do poder público induz a população acreditar em fake news
A presença insuficiente ou nula do Estado na construção de políticas públicas é um dos vetores para a desconfiança institucional e para a população acreditar em fake news

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre comunicação, eleições e defesa da democracia
Desconfiança. Viés de confirmação. Câmara de eco. Elementos diversos vêm à tona para tentarmos compreender os fatores que induzem a população a acreditar em fake news, inclusive em territórios periféricos, e como mentiras online se tornam o padrão nesse contexto.
Uma coisa é fato: a ausência do poder público é um motivo que tem peso significativo para a aderência a informações descontextualizadas. Para se ter uma ideia, segundo a pesquisa Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil, da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena, tópicos sobre política são os maiores alvos de desinformação. Além disso, temas referentes a questões raciais e de gênero, saúde, mudanças climáticas e religião são também alvos frequentes de mentiras.
Além disso, segundo a edição 2025 do Painel TIC, do Comitê Gestor da Internet (CGI), Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), a desconfiança com o trabalho jornalístico (48%) é maior em comparação com informações compartilhadas por amigos e parentes (42%) ou via aplicativos de mensagens (39%).
“Há mídias no Brasil que não têm esse compromisso político com a gente. Elas contam, sim, com uma editoria racista e nos culpabilizam por sermos ocupantes [de favelas]”, pondera Gizele Martins. Gizele é mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ), moradora do Complexo da Maré (RJ) e militante dos direitos humanos. De acordo com ela, ao retomar o histórico de formação das favelas, em especial nos grandes centros urbanos, as populações que as ocuparam o fizeram em busca de trabalho e moradia.
Estereótipos, desconfiança e desinformação nas periferias
Enquanto se afasta da sua missão primordial – atuar para criar e manter um ambiente informacional voltado ao bem comum -, ao contribuir para reproduzir vieses, a imprensa ainda reproduz estereótipos sobre as cidadãs e cidadãos que moram em territórios periféricos. E, com isso, criam um terreno fértil para levar a população a acreditar em fake news.
Para se ter uma ideia, um levantamento de 2019 do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) identificou o seguinte viés. Durante 90 dias, os periódicos O Dia, Extra, O Globo e Meia Hora deram 80 capas negativas sobre as favelas do Rio de Janeiro. Qual é o efeito dessa abordagem? A população não se sente representada por veículos tradicionais.
Tais fatos, além de o Estado estar ausente quando se fala de políticas públicas, mas presente através de seu braço repressor, fomentam a descrença. “Não estarmos em reportagens e nas mídias comerciais hegemônicas, e não ter nossa cultura e educação trabalhadas para podermos nos identificar, é uma política de Estado. Aí é muito mais fácil nos criminalizar, pois aí não nos revoltaremos, e é muito mais fácil nos culpabilizar, pois acreditaremos que somos mesmo culpados por existir”, pondera Gizele.
Tal percepção é corroborada pela pesquisa Dos territórios indígenas às periferias. O estudo contou com 1.563 entrevistas realizadas em territórios periféricos de Recife (PE), Santarém (PA) e São Paulo (SP). Segundo o estudo:
“Nos territórios analisados, a desinformação não emerge no vazio, mas em contextos marcados por ausências do Estado, precarização de direitos e disputas narrativas permanentes”.
Esse ponto vem à tona na reflexão de Thaís Siqueira, cofundadora do Desenrola e Não Me Enrola e coordenadora da Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena. Nesse sentido, o levantamento aponta que a desinformação circula dentro de contextos onde desigualdades no acesso à informação, infraestrutura digital e educação midiática. Isso vale também para desconfianças em relação a instituições estão presentes.
“Quando o Estado não garante o direito à informação, não fortalece políticas de educação midiática e não reconhece quem já produz informação nesses territórios, ele também contribui para ampliar essas vulnerabilidades. Para nós, informação precisa ser tratada como um direito e como parte da infraestrutura necessária para o exercício da cidadania”, pondera.
Como parar de induzir a população a acreditar em fake news?
Um passo em direção a esse cenário passa por democratizar o trabalho jornalístico com foco no bem comum, ao apoiar a evolução de coletivos, coalizões e projetos independentes e com foco na comunicação comunitária. Nesse contexto, a pesquisa Dos territórios indígenas às periferias apresenta a seguinte reflexão:
“Combater a desinformação não se resume à checagem de fatos, mas exige uma reorganização das relações entre Estado, território, cultura e linguagem. Isso inclui reconhecer e financiar os sistemas próprios de comunicação, a oralidade ancestral, a pluralidade de formas de expressão e os modos coletivos de construir e validar o saber.”
Além disso, o acesso a direitos básicos é fundamental para a população reduzir a desconfiança com relação ao poder público. Isso funciona, então, como contraponto ao processo desumanizador ao qual a população de territórios periféricos se vê submetida.
Em paralelo, o debate sobre a regulação da atividade das big techs é inevitável, uma vez que a estrutura das plataformas induzem a população a acreditar em fake news. Essa perspectiva torna-se ainda mais marcantes ao se considerar os seguintes dados da mesma pesquisa:
- 16,7% de pessoas idosas e 18,1% de jovens informam-se, respectivamente, por meio do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp;
- Em paralelo, o patamar no Instagram é de 5,3% de pessoas idosas e 22,5% de jovens.
Para Gizele Martins, o poder público precisa mobilizar-se para, simultaneamente, estar presente para além do braço de repressão e para pautar a urgência de regular as big techs. “[O Estado] coloca a polícia para controlar a nossa revolta, mas também insere uma comunicação para controlar nossa narrativa. Aí, a produção de fake news crescerá cada dia mais se o Estado não tocar o debate da regulamentação das empresas de tecnologia, de algoritmos. Idem quanto à relação à distribuição dessas notícias”, pondera.
Por fim, compreender os caminhos que induzem a população a acreditar em fake news e combatê-los tem abrangência para além de territórios periféricos. Trata-se, afinal, de um problema que atinge a todas as classes econômicas.
“A desinformação atravessa toda a sociedade. O que muda são as condições de acesso à informação, as fontes disponíveis, as relações de confiança e as possibilidades de checagem. O debate precisa ser sobre desigualdade informacional, e não sobre uma suposta incapacidade das pessoas que vivem nas periferias”, completa Thais Siqueira.
Texto: Amauri Eugenio Jr.
