Lideranças do Jardim Lapena fazem visita a Medellín para conhecer a realidade local
A visita a Medellín possibilitou à população do bairro da zona leste de São Paulo conhecer semelhanças e exemplos presentes na cidade colombiana
Como conhecer outras realidades e diferentes modelos de organização social nos permite a buscar exemplos e a trocar experiências? Essa foi a premissa da comitiva composta por 14 lideranças do Jardim Lapena, bairro da zona leste, que esteve na visita a Medellín, na Colômbia. Boa parte das pessoas que compuseram o grupo participou do curso de urbanismo social ministrado pelo Insper – e elas puderam comparar a realidade com a prática.
Entre o fim dos anos 1980 e o início da década seguinte, a cidade colombiana tornou-se mundialmente famosa pelos altos índices de violência urbana. Contudo, nas décadas seguintes, transformou-se em um estudo de caso graças à redução nesses mesmos indicadores e nos níveis de desigualdades socioeconômicas.
Nesse sentido, um fator emblemático compreende a implementação de iniciativas referentes à lógica de urbanismo social. Esse conceito consiste na articulação de políticas urbanas que visam levar a territórios com veementes níveis de desigualdades os mesmos equipamentos públicos e serviços existentes em regiões com melhores patamares de desenvolvimento territorial, humano e de qualidade de vida.
Sobre a viagem para conhecer os exemplos presentes em Medellín, Marcelo Ribeiro, gerente de Projetos Estratégicos da Fundação Tide Setubal. Marcelo foi também uma das pessoas participantes da viagem, fala sobre o “mergulho” que elas e eles realizaram no território. “Uma imersão também é isso: um espaço de deslocamento, mas principalmente de afirmação dos sujeitas e sujeitos periféricas que constroem o mundo todos os dias.”

Comitiva do Jardim Lapena durante visita guiada em Medellín (Foto: Arquivo pessoal)
+ Entre o idealismo e a realidade: crônicas de uma imersão em Medellín, por Abraão Silva (Lincoln), auxiliar de Programas e Projetos da Fundação Tide Setubal
Aprendizados da visita a Medellín: semelhanças e diferenças
Cleiton da Silva, o Kaki, presidente da Sociedade Nova Jardim Lapenna, fez parte da comitiva que participou da visita a Medellín, falou sobre as diferenças existentes entre os dois territórios que saltaram aos seus olhos. Um exemplo diz respeito às relações estabelecidas pelas lideranças locais nos respectivos territórios. Idem o acesso que a comitiva do Jardim Lapena não conseguiu ter a determinadas áreas na região.
“Não pudemos entrar. Entendo que deveria haver mais diálogo lá dentro e ter um líder de lá para podermos entrar nas comunidades, conhecer os pontos lá e ver como é dentro da comunidade. Ficamos mais ao lado do centro, onde estava mais bonitinho e preparado. Mas não entramos na realidade da comunidade”, comenta. Com isso, ainda que a visita a Medellín tenha sido para assimilar exemplos e possibilidades para adaptação e aplicação no Jardim Lapena, Kaki considerou o caráter mútuo do que é um intercâmbio: “Daqui, nós temos muito o que oferecer para eles.”
Em paralelo, Natália Gonçalves de Souza, integrante do Coletivo das Marias, encontrou uma conexão sentimental entre ambas as populações e os respectivos territórios. “Hoje eles falam com muito amor da comunidade e do local onde moram. Eles têm amor pelo o que fazem e isso acendeu uma chama no coração, pois também falo do meu território com muito amor.”
Outra correspondência entre as duas localidades passa pelos esforços para transpor as adversidades existentes. “Eles podem falar de lá por outras coisas, como falta de recursos e de oportunidades”, comenta, ao destacar que a população atua para superar o histórico violento do território. “Hoje eles têm uma história de superação e falam isso com garra. E o Lapena é um lugar de superação também.”
Relação com o poder público e legado das obras
Um dos pontos que deram o tom da visita a Medellín foi a observação da dinâmica da sociedade civil local com o poder público, inclusive quando se fala na infraestrutura urbana. Esse ponto foi trazido por Marluce Gronga, integrante das Guardiãs do Território e da comitiva que viajou à cidade colombiana.
Nesse sentido, Marluce destacou o papel atuante da população – “eles não deixam de participar e é como se fosse o nosso Plano de Bairro.” A participação popular, cuja dinâmica fez a guardiã observar conexões com a atuação populacional no Jardim Lapena, foi uma ponte para estabelecer conexões com as obras de infraestrutura implementadas na cidade colombiana, ainda no início deste século. E, consequentemente, ver os resultados concretos da luta popular por melhorias.
“As obras de urbanismo social ainda têm a mesma qualidade e não há intervenções depredadas. Há uma praça semelhante à Praça da Sé, em frente tem uma igreja. E é possível ver o pessoal sentado lá, assim como outras pessoas com os seus comércios – isso chama muito a atenção. Há também outra praça onde estão muitos monumentos lá, doados por um artista local. Visitamos também um museu e essa foi uma experiência gostosa de se ver”, pondera Marluce.
O que a vida quer da gente é coragem e participação política
Gisele Fernanda, moradora do Jardim Lapena e integrante do Plano de Bairro e do Grupo de Trabalho (GT) de Mobilidade Urbana, também fez parte do grupo.
Ao considerar os conteúdos que viu em aula durante o curso de urbanismo social, Gisele destaca que viu pontos positivos e negativos na cidade. Essa perspectiva considerou também o comparativo entre pontos com os quais a população do Jardim Lapena precisa aprender com a experiência de Medellín – e vice-versa. E tal percepção considerou também o papel da memória como força transformadora.
“O que mais me surpreendeu foi que eles são muito resilientes. Eles já sofreram com várias guerras: de narcotráfico, militares e paramilitares. Fomos ao Museu da Memória e eles continuam a acreditar que cultura, lazer e acesso à informação e a equipamentos podem mudar o seu território”, pondera.
Finalmente, ao considerar as ações bem-sucedidas em ambos os territórios, Gisele destaca o papel da vontade política como um elemento central de transformação sociopolítica. “Eu destacaria a vontade política, mas traria também a vontade do terceiro setor”, comenta, ao falar sobre a necessidade da união de forças para transformar a realidade vigente.
“Temos de andar com todas as forças que querem promover melhorias dentro da comunidade. Entendo que o povo aqui é bem raçudo e temos muita ideias – somos muito criativos. Precisamos de pessoas para caminhar e de letramento e informações também. E [precisamos] da vontade política do terceiro setor e de empresas para acreditar no nosso trabalho”, finaliza.
Reportagem: Amauri Eugênio Jr. e Domenica Pedroso
