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Entre o idealismo e a realidade: crônicas de uma imersão em Medellín

A teoria e a prática raramente se encontram de forma linear. Para quem estuda o urbanismo social, Medellín é quase um lugar sagrado — um estudo de caso vivo sobre como a arquitetura e a gestão pública podem intervir em territórios de vulnerabilidade. A viagem que realizei não foi apenas uma visita técnica, mas uma necessidade de confrontar o papel com o concreto.

 

Nossa imersão em Medellín percorreu os marcos fundamentais dessa transformação: a imponência das Parque-Bibliotecas, la casa de todos, a fluidez dos parques urbanos e o simbolismo das obras de Fernando Botero. No Museu da Água, entendemos a infraestrutura; nas Comunas, sentimos a geografia desafiadora. Contudo, como jornalista, é impossível silenciar o olhar crítico em favor do deslumbramento.

 

Um grupo de pessoas está dentro do Museu da Água. Eles aparecem sob uma abóbada branca e à frente de uma parede colorida com predominância de tonalidades azuis e terrosas. Trata-se do grupo que fez parte da viagem de imersão a Medellín.

Comitiva da viagem a Medellín dentro do Museu da Água (Foto: Arquivo pessoal)

A memória e o símbolo: O centro e a Praça das Luzes

Nossa jornada começou pelo coração da cidade. O Centro Histórico e a Praça das Luzes exercem um fascínio imediato, especialmente pela forma como preservam a antiga estação ferroviária.

 

Para mim, estar ali foi como tocar na espinha dorsal de Medellín; aquele lugar simboliza o crescimento econômico e a resiliência de um povo. É uma arquitetura que orgulha e que prepara o visitante para entender a complexidade da metrópole que se expandiu montanha acima. É o testemunho de uma cidade que usa a preservação de sua memória para lembrar a todos de onde veio sua força.

 

Fachada do Parque Biblioteca La Ladera. Trata-se de uma construção com dois andares com três prédios conectados entre si. Há, ao centro, uma placa com o nome do espaço e pode-se ver, mais à frente, um pátio onde há três pessoas que participaram da viagem de imersão a Medellín.

Parque Biblioteca La Ladera (Foto: Arquivo pessoal)

O Espelho de La Ladera: tecnologia sem pulso?

Contudo, o olhar crítico não tardou a aparecer. Na Biblioteca La Ladera, o impacto foi visual e técnico. Encontramos um espaço de empreendedorismo impecável: um coworking moderno com impressoras 3D e plotagens.

Mas o que saltou aos olhos foi o vazio. As máquinas, brilhantes e sem qualquer marca de manuseio, pareciam estáticas, quase como peças de museu em um cenário de vitrine. Para um projeto que visa a geração de renda, o silêncio daqueles equipamentos levanta uma questão essencial: a infraestrutura está lá, mas a vida pulsante da produção parece ainda não ter ocupado as mesas. Ali, a inovação parecia pausada no tempo.

A barreira da mobilidade: onde está a acessibilidade?

Um dos pontos mais sensíveis da imersão em Medellín foi a análise dos modais de transporte. Embora o Metrocabo seja vendido como modelo mundial, notei falhas graves de inclusão. A acessibilidade parece ter sido deixada em segundo plano: a falta de piso tátil e elevadores localizados em pontos distantes tornam a cidade hostil para idosos ou pessoas com deficiência.

O próprio sistema de embarque, onde a cabine apenas reduz a velocidade mas não para totalmente, exige uma agilidade motora que exclui quem foge do padrão de mobilidade plena. É um sistema eficiente para a massa, mas excludente para o indivíduo.

 

A Comuna 13: entre o marketing e a privacidade

Ao subirmos a Comuna 13, a sensação de “cenário para exportação” se intensificou. O que o mundo consome como o ápice da integração social me pareceu um produto de marketing agressivo, onde a privacidade dos moradores é o preço a pagar. Vi casas de portas e janelas fechadas, como se os residentes buscassem um refúgio contra o fluxo ininterrupto de estranhos fotografando sua rotina.

 

O que mais me inquietou, no entanto, foi o silêncio lúdico. Em um território tão vibrante, a escassez de crianças brincando de forma espontânea salta aos olhos. O espaço público, teoricamente devolvido ao povo, parecia ocupado predominantemente pela logística do turismo. Ficou a nítida percepção de que a estrutura foi pensada para ser vista de fora, mas não necessariamente para ser vivida por dentro, deixando o cotidiano dos moradores em um segundo plano invisível.

 

Conclusão: o urbanismo que precisamos discutir

A imersão em Medellín foi um aprendizado valioso, mas desmistificador. Saímos com a certeza de que o urbanismo social só é pleno quando é inclusivo e organicamente vivido.

 

Não basta ter cabines flutuantes e impressoras 3D se o idoso não consegue embarcar com segurança e o empreendedor local não ocupa a mesa de trabalho. Medellín ensina pelo que conquistou, mas ensina ainda mais pelas lacunas que, como jornalistas e cidadãos, não podemos deixar de apontar.

 

Entre a nostalgia da estação ferroviária e o marketing das encostas, a cidade se revela em busca de uma inclusão que ainda não se completou.

 

Imagem do Centro Administrativo La Alpujarra. A foto mostra dois prédios - um no canto esquerdo e outro ao fundo. Há um monumento em formato curvado com elementos inseridos no topo até a base.

Centro Administrativo La Alpujarra (Foto: Arquivo pessoal)

 

+ Lideranças do Jardim Lapena fazem visita a Medellín para conhecer a realidade local

 

Do altiplano à várzea: reflexões para o Jardim Lapenna

A experiência e a imersão em Medellín nos deixam uma lição fundamental para o Jardim Lapenna. No caso, o urbanismo social só atinge sua plenitude quando o investimento em estética e infraestrutura é acompanhado por uma alma comunitária vibrante.

 

Se na Colômbia vimos equipamentos impecáveis que, por vezes, careciam de uso, no Lapenna temos o cenário inverso e privilegiado, onde a vida comunitária já pulsa com força, aguardando apenas espaços que estejam à sua altura. O que podemos trazer de lá não é um modelo pronto. Isso abrange, então, a coragem de tratar a periferia com a excelência arquitetônica que geralmente se reserva aos centros das metrópoles.

 

O primeiro grande aprendizado é a democratização do design. Medellín ensina que o acabamento de uma praça ou a fachada de uma biblioteca é uma mensagem direta sobre o valor de quem ali habita.

 

Imagem da comitiva do Jardim Lapena participante da viagem de imersão em Medellín durante visita ao Parque Berrío.

Comitiva do Jardim Lapena durante visita ao Parque Berrío (Foto: Arquivo pessoal)

 

No Jardim Lapenna, podemos elevar esse padrão de “orgulho de bairro” investindo em mobiliário urbano que seja não apenas funcional, mas visualmente icônico. Trata-se de transformar o Galpão ZL e as praças do entorno em marcos de identidade, onde a beleza do espaço sirva de moldura para a potência dos encontros que já acontecem organicamente. É o urbanismo como ferramenta de autoestima, dizendo ao morador que o melhor da cidade também pertence a ele.

 

No entanto, para não cairmos no erro da “tecnologia sem pulso” que observamos na Biblioteca La Ladeira. Nesse sentido, a adaptação para o Lapenna exige que a inovação seja um meio, e não um fim. Enquanto lá vimos impressoras 3D silenciosas, aqui podemos desenhar espaços de “fazedoria” que já nasçam conectados às redes de costureiras, artesãos e jovens empreendedores do território.

 

Lições da imersão em Medellín

O equipamento de ponta deve entrar para destravar uma produção que já existe, garantindo que as mesas de trabalho nunca fiquem vazias. O urbanismo no Lapenna tem a chance de ser “mão na massa”, focado menos na vitrine tecnológica e mais na oficina de sonhos que gera renda real para as famílias.

 

Por fim, a lição mais humana que trazemos é a necessidade de um olhar radical sobre a caminhabilidade e o brincar. A imersão em Medellín nos mostrou que escadas rolantes e cabines flutuantes não substituem a necessidade de uma calçada plana e de um espaço seguro para a infância. No Lapenna, o “urbanismo do futuro” pode ser traduzido na simplicidade de uma rua onde o idoso caminha sem medo de tropeços e onde as crianças ocupam o espaço público com o riso que senti falta nas Comunas.

 

Ao priorizar a acessibilidade total e criar microparques que incentivem o lazer espontâneo, o Lapenna pode superar o modelo colombiano, provando que o urbanismo social mais bem-sucedido é aquele que, em vez de se tornar um produto para turistas, se torna o quintal vivo e acessível de seus próprios moradores.

 

 

Imagem de Abraão Ferreira da Silva. Ele aparece à frente de uma prateleira com livros, usa uma camiseta cinza e óculos. Abraão tem barba e é um homem negro.Relato por Abraão Silva (Lincoln), auxiliar de Programas e Projetos da Fundação Tide Setubal

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