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Quando falamos de preservação ambiental, não é apenas da Amazônia ou do Brasil, mas de todo o mundo – Fundação Tide Setubal entrevista Tukumã Pataxó

Poder contar as próprias histórias é um dos principais iniciativas para qualquer grupo ter protagonismo social e reduzir riscos de silenciamento. Essa lógica é reproduzida por diversos produtores de conteúdo e influenciadores indígenas. Por meio das redes sociais, eles trazem visibilidade às narrativas dos seus povos em áreas variadas. São publicações relativas a produções artísticas, quebras de estereótipos e de preconceitos e a luta de inúmeras etnias em causas comuns, como a autonomia dos respectivos povos, o respeito à demarcação de terras indígenas e a causa ambiental.

 

Esse é o caso do comunicador indígena Tukumã Pataxó. Representante do movimento em prol dos direitos indígenas, Tukumã produz conteúdos diversos voltados à conscientização sobre a urgência da preservação do meio ambiente, desconstrução de lugares-comuns e distorções históricas sobre o seu povo e demais etnias, e à visibilidade para a causa indígena – com ironia e bom humor, ou seriedade, conforme o tom da mensagem. Até a primeira quinzena de abril, o comunicador indígena é seguido por mais de 172 mil perfis no Instagram, 34,6 mil no TikTok e 20,7 mil pessoas e organizações no Twitter.

 

Ainda, Tukumã Pataxó é colaborador do portal Mídia Índia e apresentador do podcast Papo de Parente, da Globoplay, no qual ele e a educadora e liderança indígena Célia Xakriabá falam sobre aspectos diversos relacionados à cultura indígena, como agricultura, política, esportes e medicina – inclusive, Tukumã está à frente do quadro Receitas da Terra, em que apresenta diferentes combinações de ingredientes da culinária dos povos originários.

 

Os temas retratados são importantes em todos os dias do ano – passando pela luta por direitos, pelo protagonismo, inclusive para contar as próprias histórias e mostrar como são de fato as suas vidas, e lutar contra discursos e atos opressores de forças políticas de extrema-direita. Um exemplo disso é a mobilização ocorrida na 18ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), realizado em Brasília entre 4 e 14 de abril. Confira a seguir o bate-papo.

 

 

Nas suas publicações nas redes sociais, você aborda uma série de clichês e lugares-comuns ditos por pessoas não indígenas e desmonta preconceitos relativos aos povos originários. Em sua opinião, como essa perspectiva ajuda quem assiste aos seus a refletir sobre estereótipos e sobre a visão a respeito de populações indígenas? 

Tukumã Pataxó: É superimportante. Acredito que ajuda, pois as pessoas estão acostumadas a lidar com o livro didático, por exemplo. Em muita vezes, aqueles livros didáticos não estão atualizados quanto à questão atual dos povos indígenas. Hoje, temos mais de 300 povos indígenas no Brasil e mais de 200 línguas faladas. A maioria daqueles livros conta a realidade de um povo, mas em muitas das vezes não é a realidade em que a pessoa foi a fundo para saber mais sobre a história daquele povo, e em como ela acaba englobando, como se aquele povo fosse todos os povos indígenas do Brasil. O Brasil não tem só uma etnia e só um povo e não moramos somente em uma região do nosso mapa, não: há povos indígenas em todas as regiões do Brasil, em todos os biomas.

 

O que faço é mostrar como estamos atualizados e estamos aqui para poder mostrar para as pessoas que povos indígenas têm uma grande diversidade cultural, ética, de beleza. Cada povo tem a sua diversidade, o seu costume e a sua cultura. Quando se fala de preconceito, todos os povos passam muitas vezes pela mesma coisa ou escutam a mesma piada – isso me trouxe a fazer o conteúdo para a internet. Certa vez, em dezembro de 2019, postei a primeira publicação que viralizou, sobre eu ter o meu traje, cocar e tanga, mas não usamos essas vestimentas o tempo todo dentro da nossa comunidade. As pessoas pensam que andamos assim 24 horas por dia. Muitos povos andam, sim, com as vestimentas deles, mas também têm roupas normais – pode-se dizer “de branco”, compradas nas lojas e tudo mais.

 

Postei isso e vários outros indígenas começaram a compartilhar também e percebi que não sou somente que escuto isso – faz parte do dia a dia de outros parentes também. Foi quando pude perceber que, criando isso, começamos a quebrar as barreiras do preconceito e dos estereótipos colocados nos povos indígenas. Isso não fala só de mim, mas fala de vários outros povos também.

 

Como recursos tecnológicos têm sido aliados para comunicadoras/es indígenas sobre protagonismo, para vocês divulgarem suas próprias histórias e disseminar como vocês veem o mundo?

Tukumã Pataxó: Hoje em dia, o telefone é um dos principais meios de comunicação para os povos indígenas. Uma das principais plataformas com a qual trabalho é o Instagram, para a qual uso como produção de conteúdo e tudo mais. Querendo ou não, o iPhone é um dos celulares que não perde qualidade quando se posta no Instagram e tem a melhor função.

 

Para mim, ter um iPhone não é questão de luxo, mas sim de precisão, pois o nosso smartphone, hoje em dia não, não é luxo: é uma ferramenta de luta. Quando postamos, não é só para o local onde moramos. Estamos postando em nível internacional, pois quando postamos aqui, se isso viraliza, chegará ao mundo todo. Queremos trazer a nossa produção de conteúdo, a nossa realidade, o que vivemos e o que passa ao nosso olhar para o mundo todo aprender também – não só aqui no Brasil ou na nossa região. A internet, a tecnologia, o celular, o computador, o notebook são ferramentas de luta para os povos indígenas.

 

 

 

Tukumã Pataxó fala sobre a série de equívocos contidos no clichê preconceituoso e etnocêntrico sobre pessoas indígenas não poderem possuir smartphones

 

Quais são os principais desafios que você encontra para se comunicar com quem está pouco sensibilizado às demandas e pautas da sua etnia e dos demais povos?

Tukumã Pataxó: Cada plataforma tem uma maneira para você lidar com o público. O Papo de Parente foi algo muito novo para mim, tanto que quando chegou o convite para participar, falei que não sabia gravar podcasts. Eu já havia participado, mas nunca havia feito algo em que gravaria o meu episódio e o meu quadro. Mas topei, pois era algo que queria aprender. Sou desse jeito: se houver possibilidade de fazer, farei. Gosto muito de gravar vídeos, pois as pessoas podem ver as nossas expressões e tudo mais. Quando gravamos em áudio, temos de transmitir a emoção do que explicamos para as pessoas escutarem e tentarem imaginar o que tentamos falar para elas. Foi algo muito novo para mim e deu muito certo.

 

No dia da gravação ocorreu o segundo confronto entre os indígenas e a polícia, quando não deixaram entrar na sede da Funai. Estava lá, mas não soube de nada, pois o meu celular estava guardado e eu estava gravando. Quando parei para almoçar e vi aquilo, sabendo que eu estava  no estúdio, em Goiás, e não poderia estar lá, fiquei mais ansioso e pensando: “Como os meus parentes estão passando por isso e estou aqui, gravando?”. Consegui entrar em contato com o pessoal e as coisas estavam mais calmas.

 

São muitos os desafios. Lidar com as pessoas quanto à produção de conteúdo é um pouco complicado, pois elas têm pouca informação sobre a cultura indígena. Precisamos trazer as nossas informações: não o que elas aprenderam na maioria das vezes nas escolas, mas sim o que realmente vivemos e passamos. Falta querer aprender e informar-se mais sobre as questões indígenas. É necessário quebrar todas essas questões para as pessoas entenderem, então, que é dessa forma como vivemos e somos.

 

 

Ouça a terceira temporada do podcast Essa Geração, com Samela Sateré-Mawé

 

Você considera que o seu trabalho pode ajudar a sensibilizar quem te segue sobre a urgência da preservação ambiental e sobre assuntos como a demarcação de terras indígenas e o garimpo?

Tukumã Pataxó: Dentro do nosso território Pataxó, na Costa do Descobrimento, não há a questão do garimpo, mas existe a questão do desmatamento e da demarcação de território. Quando falamos de preservação do meio ambiente, não é apenas da Amazônia ou do Brasil, mas sim de todo o mundo – por exemplo, se o garimpo e a extração de madeira ilegal forem legalizadaos, se a Amazônia for aberta para o agronegócio, eles desmatarão muito. Quando se desmata, não são apenas os povos indígenas que perdem: o nosso planeta também perde. Dependemos das árvores e da nossa mãe natureza árvores para sobrevivermos, mas, por muitas vezes, as pessoas não compreendem isso e visam apenas o eu de agora, não o eu do amanhã.

 

Já o indígena, não. Vejo isto muito pela minha avó: é uma pessoa guerreira que sempre visou muito o seu futuro e o futuro dos seus netos, dos seus filhos e das próximas gerações. Tanto que o território onde moramos é demarcado. Mas teve muita luta: o governo tentou tirá-la por várias vezes, mas ela havia falado que não sairia daqui – e não saiu. Temos hoje a nossa terrinha e o nosso lugar para podermos construir nossa casa, pois ela pensou em nós.

 

Hoje, tudo ao redor está rodeado por árvores – é um dos poucos lugares aqui na nossa área, pois podemos preservar essa parte. Pensamos no nosso futuro e não apenas no hoje. Muitas pessoas pensam apenas no hoje e não querem pensar no amanhã. Se eu plantar uma árvore, demorará dez ou vinte anos para crescer, mas serão dez ou vinte anos que o filho ou o neto poderão aproveitar essa árvore. Não se trata só de você: trata-se de todo o mundo. Tentamos passar o quanto a preservação do meio ambiente é importante, pois não afetará apenas os povos indígenas, mas também quem, em muitas das vezes, só pensa no lado financeiro.

 

Passamos por um momento no qual lideranças de extrema-direita agem para silenciar grupos minorizados e, para alcançarem esse objetivo, radicalizam discursos de ódio e políticas mais opressoras. Quais desafios precisamos enfrentar para superarmos essa onda de intolerância e dialogarmos com pessoas de fora da bolha?

Tukumã Pataxó: É muito difícil dialogar com pessoas de fora da bolha, pois elas têm pensamento muito fechado. Por muitas vezes, elas querem falar, mas não querem escutar. Precisamos do diálogo para podermos aprender. Preciso conversar com você, escutar o seu ponto de vista, e você precisa escutar o meu para chegarmos ao senso para podermos entender o que quero falar e o que você quer falar. Na maioria das vezes, para lidarmos com essas pessoas, precisamos ter muita paciência para podermos tentar passar o nosso ponto de vista. Digo que não é difícil eu falar sobre a minha cultura, povo e aldeia, pois foi onde cresci, vivi e onde sei sobre o que estou falando. Não preciso estudar a fundo isso, pois o estudo sou eu. As pessoas de fora sabem o que elas aprenderam por outrem e não por nós mesmos falando para elas.

 

 

 

Tukumã Pataxó descreve o modo como ele lida com detratoras/es nas redes sociais e transforma mensagens de ódio recebidas por ele em conteúdos para conscientização sobre a sua etnia e demais povos originários

 

Qual é a perspectiva que você tem para o futuro em curto e médio prazos?

Tukumã Pataxó: Falo que o futuro é algo sobre o qual não podemos deixar de pensar. Querendo ou não, o amanhã vai existir, mas dependerá muito de nós, pois o nosso o nosso presente é agora. Precisamos pensar no que queremos construir para o nosso amanhã e fazemos uma grande diferença para isso.

 

Espero muito que, daqui a alguns anos, as pessoas possam compreender o quanto a causa indígena, a nossa luta diária, o que defendemos e acreditamos são importantes. Não se trata de algo apenas para nós: faz parte de vocês também, pois dependemos da proteção do meio ambiente e do nosso planeta para sobrevivermos. Se acabar, acabará com tudo e com todos. Precisamos parar de pensarmos só em nós mesmos e começarmos a pensar em conjunto para podermos ter um futuro melhor.

 

 

PARA APROFUNDAR

Confira a seguir as dicas de conteúdos dadas por Tukumã Pataxó durante a entrevista:

 

 

  1. APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil)
  2. Portal Mídia Índia
  3. Podcast Papo de Parente, da Globoplay

 

 

 

Entrevista: Amauri Eugênio Jr.

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