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A vida de quem perde uma vaga de emprego por morar na periferia

Programas de influência

16 de dezembro de 2021
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Por Nataly Simões

 

 

Alcançar títulos acadêmicos é visto por muitos brasileiros como uma forma de garantir melhores condições de vida, especialmente para a população negra que, somente em São Paulo, corresponde a mais de 70% dos moradores de periferias, segundo dados coletados pela organização social TETO Brasil.

 

O sonho de ingressar no ensino superior, impulsionado por ações afirmativas como a política de cotas, fez o número de estudantes negros dar um salto de quase 400% em dez anos – entre 2010 e 2019. No período, a quantidade de pretos e pardos matriculados passou de 9,3% para 38,15%, de acordo com levantamento feito pela plataforma Quero Bolsa, a partir dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

O acesso aos títulos acadêmicos, porém, não significa a superação de barreiras da discriminação em razão do local onde se mora no momento de buscar uma oportunidade no mercado de trabalho, a exemplo de Fabiana Marques do Carmo, mulher negra, lésbica e candomblecista, que sempre morou no Jardim da Conquista, no distrito de São Mateus, na zona leste de São Paulo. Embora tenha orgulho de ter nascido e crescido na periferia, ela coleciona em sua memória situações em que foi vítima de discriminação por causa da sua cor de pele e bairro de origem.

 

Seu caso está longe de ser isolado. Uma consulta realizada pela Fundação Tide Setubal com seguidores dos canais e redes sociais identificou que 95,9% dos moradores das periferias já sofreram algum tipo de discriminação por morar onde moram.

 

Fabiana é assistente social, pós-graduada em Direitos Humanos pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e no início de 2021 ingressou no mestrado em Antropologia. A profissional conta que já passou por entrevistas de emprego em que suas formações foram questionadas.

 

 

 

Em uma outra entrevista, também para a vaga de assistente social em uma instituição ligada à Igreja Católica, Fabiana foi questionada sobre o mestrado. “Passei por várias etapas com o RH e, na quarta, o entrevistador, que era um frei, me perguntou como eu fazia o mestrado e de qual maneira eu o consegui. Expliquei que estudei, as aulas eram online e eu precisava do emprego para me manter durante a pandemia. Depois eu recebi a notícia de que eu não fui aprovada no processo seletivo”, revela.

 

Por causa das situações discriminatórias, Fabiana deixou de colocar no currículo que realizava um mestrado. Desempregada, a acadêmica mudou-se para Ilha Solteira, cidade do interior de São Paulo na divisa com Mato Grosso do Sul, em busca de recolocação profissional. “É triste você ter que negar no seu currículo quem você é. Agora estou em busca de dar aulas em escolas e universidades”, pontua.

 

 

 

 

Mentir sobre o endereço onde mora

 

O levantamento realizado pela Fundação Tide Setubal também identificou que 76,2% das pessoas já sentiram necessidade de mentir sobre o bairro onde moram para evitar problemas. Entre as situações se destacam currículos e entrevistas de emprego, com 57,6% das respostas.

 

A educadora Silvana Lopes, 39, mora no Jardim Santana, na periferia de Porto Velho, em Rondônia. Ela relata já ter colocado o endereço da casa da mãe, que mora no centro da cidade, para não correr o risco de perder uma vaga de emprego por causa do local onde vive. “Hoje escolho não recorrer mais a esse tipo de estratégia, mas nem sempre foi assim. Já tiveram situações, quando eu era mais jovem, em que ao entregar o currículo eu colocava o endereço da minha mãe ou até da minha sogra”, conta.

 

Além da estratégia de usar outro endereço no currículo por receio de não conseguir emprego, Silvana também já foi alvo de preconceito dentro das relações entre amigos. “Meus colegas sempre faziam piadas por eu morar na periferia de Porto Velho, ao falar onde eu morava ouvia comentários desagradáveis. Então, ou eu não falava, ou dava o endereço de outra pessoa”, detalha.

 

 

 

 

‘Estar presente não é o mesmo que estar incluído’

 

Segundo Márcio Black, coordenador do Programa Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setubal, as relações no Brasil são baseadas em patrimonialismo que segrega pessoas não-brancas e que moram fora das regiões centrais.

 

“O patrimonialismo gera um tipo de exclusão, porque você estar presente não é o mesmo que estar incluído. Uma pessoa negra pode circular em todos os espaços e mesmo assim não ser reconhecida afetivamente como outras pessoas, não importa o tipo de relação estabelecida”, explica.

 

“Quem exerce a cidadania no Brasil é quem tem acesso à renda e circula por alguns espaços. Mesmo uma pessoa negra tendo acesso a esses espaços, ela não recebe o status de cidadã. São pessoas retiradas de seus direitos de cidadania de várias formas”, complementa Márcio.

 

Para Leizer Pereira, CEO e  fundador da Empodera, plataforma pioneira na construção de negócios inclusivos, o racismo contamina o olhar das pessoas para a periferia, o que explica, mas não justifica a discriminação. “Quando a pessoa possui esse olhar contaminado, ela olha para uma mulher da favela e não a vê como trainee da sua empresa. Essa é uma questão que cria barreiras no mundo corporativo e o faz não ser desenhado para todas as pessoas”, pondera o empresário.

 

Na avaliação de Pereira, outro problema que segrega os moradores das periferias é o fato das empresas estarem concentradas em espaços centrais. “O Google fez recentemente um programa de estágio em sua rede na Faria Lima [Zona Oeste de São Paulo], onde todos os participantes eram da zona leste. O programa mostrou para eles que não havia nenhuma distinção na capacidade das pessoas por conta do local em que se mora”, finaliza.

 

À frente da Empodera, Pereira liderou outras iniciativas de mudança na cultura de grandes empresas, com mais de 1.500 jovens contratados em empresas como o próprio Google, Itaú, White Martins, entre outras. Para ele, esse é um dos caminhos para acabar com a discriminação contra grupos minorizados.


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